A movimentação de cargas nos portos brasileiros cresceu 67% nos últimos 15 anos e atingiu o recorde de 1,4 bilhão de toneladas em 2025. O volume representa alta de 6,1% em relação a 2024 e reforça a tendência de expansão do setor, impulsionada por investimentos públicos e privados na modernização da infraestrutura portuária.
No ano passado, o Ministério de Portos e Aeroportos realizou oito leilões portuários, que somaram R$ 10,3 bilhões em investimentos nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Para 2026, estão previstos 18 novos leilões. O primeiro bloco, realizado em fevereiro na B3, garantiu mais de R$ 226 milhões em investimentos.
Apesar do crescimento, o setor terá de enfrentar uma série de desafios nos próximos anos. Incertezas geopolíticas, mudanças climáticas, transformações tecnológicas, excesso regulatório e vulnerabilidades nas cadeias globais de suprimentos estão entre os principais riscos identificados pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).
Os desafios estão reunidos no estudo inédito “Riscos Globais Portuários”, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O levantamento projeta os principais gargalos e oportunidades que devem influenciar a infraestrutura e a gestão dos portos brasileiros até 2035.
A pesquisa reuniu revisão da literatura científica, análise de relatórios de sustentabilidade de portos brasileiros e contribuições de 125 especialistas e gestores do setor. O objetivo é oferecer informações para orientar decisões de longo prazo por parte do poder público, operadores privados e órgãos reguladores.
Segundo o estudo, 73,7% dos riscos avaliados permanecem em nível elevado tanto no curto quanto no longo prazo, indicando que parte significativa dos desafios possui caráter estrutural e exigirá políticas públicas permanentes e investimentos contínuos.
“Mais do que identificar riscos, este projeto oferece diretrizes para fortalecer a capacidade de adaptação do setor portuário. É um trabalho que transforma diagnóstico em planejamento e conhecimento em melhores decisões regulatórias”, afirmou o diretor-relator da Antaq, Alber Vasconcelos.
Instabilidade política e conflitos comerciais
Entre os riscos considerados mais críticos no curto prazo está a instabilidade política. Mudanças de diretrizes governamentais, insegurança jurídica e volatilidade institucional podem afetar o ambiente de negócios e dificultar a atração de investimentos privados para concessões, expansão de terminais e obras de infraestrutura.
Outro ponto de atenção são os conflitos geoeconômicos. Disputas comerciais, sanções internacionais e guerras tarifárias têm provocado mudanças nas rotas tradicionais da navegação e impactado diretamente os custos do transporte marítimo.
Para os portos brasileiros, essas transformações podem resultar em oscilações na demanda, aumento do valor dos fretes internacionais e elevação dos custos de seguros de cargas.
O estudo também aponta o excesso regulatório como um dos obstáculos para o desenvolvimento do setor. A burocracia, a sobreposição de atribuições entre diferentes órgãos e a demora em processos de licenciamento podem comprometer a realização de obras e reduzir a capacidade de resposta dos portos às demandas do mercado.
A elevação da carga tributária também aparece entre os fatores de risco. O aumento de taxas e tributos incidentes sobre o transporte marítimo pode elevar os custos logísticos e reduzir a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
Risco digital e cadeias de suprimentos
A crescente digitalização das operações portuárias também amplia a preocupação com a segurança cibernética. Sistemas utilizados para gestão de terminais, agendamento de caminhões, operações de pátio e processamento aduaneiro podem ser afetados por falhas ou ataques digitais.
Segundo o estudo, interrupções em infraestruturas digitais críticas podem comprometer o fluxo de embarque e desembarque de cargas e provocar prejuízos significativos para toda a cadeia logística.
As falhas nas cadeias globais de suprimentos também estão entre os principais riscos identificados. Problemas como a falta de contêineres, congestionamentos em rotas estratégicas e interrupções no comércio internacional podem provocar períodos de sobrecarga ou ociosidade nos terminais brasileiros.
No longo prazo, as mudanças climáticas aparecem como um dos principais fatores que devem transformar o setor portuário brasileiro.
A intensificação de eventos climáticos extremos já afeta a infraestrutura e a operação logística em diferentes regiões do país. No Norte, por exemplo, secas severas comprometem a navegabilidade de rios fundamentais para o transporte de cargas e o abastecimento de comunidades.
O levantamento aponta a necessidade de investimentos em infraestruturas mais resilientes, capazes de enfrentar fenômenos como elevação do nível do mar, assoreamento e alterações nos regimes de ventos e ondas.
Outro desafio será a descarbonização do transporte marítimo. A adoção de metas internacionais para redução das emissões de gases de efeito estufa deve acelerar o uso de combustíveis alternativos, como hidrogênio verde, amônia e metanol.
Nesse cenário, os portos brasileiros precisarão adaptar suas estruturas para atender às novas demandas da frota mundial e manter competitividade nas principais rotas comerciais.
Tecnologia deve redefinir operações
A transformação digital também deverá ganhar ainda mais espaço na operação dos portos brasileiros até 2035.
Tecnologias como inteligência artificial, sensores para manutenção preditiva e sistemas integrados de gestão logística tendem a aumentar a eficiência dos terminais e melhorar a conexão entre os diferentes modais de transporte.
Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico exigirá investimentos em segurança cibernética e interoperabilidade de dados entre empresas, órgãos públicos e operadores do setor.
O estudo da Antaq aponta que a expansão da infraestrutura portuária brasileira dependerá não apenas de novos investimentos, mas também da capacidade do país de se preparar para riscos cada vez mais complexos e interligados.
Com o crescimento da movimentação de cargas e a expectativa de novos investimentos nos próximos anos, o desafio será ampliar a capacidade dos portos sem perder de vista questões como sustentabilidade, segurança, inovação e adaptação às transformações do comércio global.
Fonte: Jornal do Commercio



