» PEDRO JOSÉ BORGES

O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, comentou, ontem, que não há regra para atuação da instituição no câmbio, que age quando vê disfuncio-nalidades. Na entrevista coletiva em que detalhou o Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do primeiro semestre, ele foi perguntado sobre uma possível intervenção no câmbio.

“Quando a gente vir, a gente vai atuar. A gente atua só em caso de disfuncionalidades” respondeu o presidente do BC. Na segunda-feira, primeiro pregão após o segundo turno, o dólar comercial fechou a RS 5,40, registrando alta de 8,21%. Ontem, o BC fez um leilão de swap cambial, de até IJSS 4 bilhões, mas a operação já estava prevista no calendário de leilões.

Ao falar sobre o Relatório de Estabilidade Financeira (REF), Galípolo ponderou que não há riscos relevantes para a estabilidade financeira no Brasil, apesar do aumento da inadimplência e da desaceleração do crédito bancário. O relatório aponta que os ativos problemáticos cresceram na carteira de crédito às famílias e atingiram o maior nível desde 2012 na maioria das modalidades.

“Quando a gente olha para ativos que são mais críticos, está muito claro uma concentração em modalidades que estão relacionadas a créditos sem garantia. A preocupação que existe é nessas modalidades que a gente está assistindo crescimento de uma maneira pouco sensível a preço”, afirmou Galípolo.

Ele também destacou que o comprometimento da renda com essas modalidades pode explicar a deterioração do crédito mesmo entre pessoas com rendimentos mais elevados. Segundo ele, o tipo de empréstimo tem peso relevante para entender o avanço da inadimplência, independentemente da faixa de renda.

Novas medidas

Galípolo afirmou ainda que o BC pretende anunciar novas medidas para incentivar o crédito até o fim do ano. O relatório aponta que o financiamento à economia real perdeu ritmo em meio às condições financeiras mais restritivas e à moderação da atividade econômica. No crédito bancário às famílias, houve desaceleração na carteira de maior risco, enquanto a de menor risco permaneceu estável. Entre as empresas, a redução do ritmo atingiu principalmente os negócios de micro, pequeno e médio portes.

Apesar da desaceleração, o mercado de capitais continua crescendo em ritmo superior ao do crédito bancário. O BC também identificou sinais de redução do apetite a risco das instituições financeiras. A melhora na qualidade das novas contratações de crédito com empresas sugere maior cautela na concessão de empréstimos, mas a modalidade de cartões de crédito mantém uma taxa de expansão elevada.

A inadimplência foi o principal fator para o aumento dos ativos problemáticos entre as famílias. De acordo com o relatório, o indicador teria avançado mesmo se as políticas de baixa a prejuízo não tivessem sido alteradas em 2025. As estimativas de probabilidade de inadimplência indicam que a pressão deve continuar na maioria das modalidades no segundo semestre de 2026.

No crédito às empresas, a materialização dos riscos também aumentou. As estimativas de probabilidade de inadimplência permaneceram elevadas, sobretudo nas operações destinadas a micro, pequenas e médias empresas.

Apesar desse cenário, o BC considera que o Sistema Financeiro Nacional mantém níveis confortáveis de capitalização e liquidez, além de provisões adequadas às perdas esperadas. O sistema permanece rentável e resiliente, embora tenha registrado recuo na rentabilidade. Os testes de estresse de capital e liquidez também indicam robustez do sistema bancário.

Durante a apresentação, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou que 242 instituições financeiras não conseguiram cumprir os limites mínimos de capital exigidos pela regulamentação. Segundo ele, essas instituições estão sendo chamadas a apresentar planos para se adequar às regras. “Caso não ocorra o enquadramento, podem sofrer medidas restritivas como novas capturas de clientes ou medidas ligadas a determinadas operações” afirmou.

Fonte: Jornal Correio Braziliense

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