“A pedra fundamental da proposta foi lançada com o protagonismo e recursos do setor privado, em 1999, e o projeto era a criação de uma estrutura conectada de empresas públicas de Bioeconomia trabalhando em rede desde o Instituto Butantã, em São Paulo, Manguinhos no Rio, ao Evandro Chagas, em Belém, a partir do Centro de Biotecnologia da Amazônia em Manaus.,Sabe o que se deu até agora? Praticamente em nada”

Nelson Azevedo
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Com autoridade de quem dirigiu a Receita Federal por 8 anos, o tributarista Everardo Maciel revelou a intenção oculta de uma das propostas de Reforma Tributária: a eliminação da ZFM, o programa Zona Franca de Manaus. Haverá na história da República algum acerto maior para reduzir as desigualdades regionais? A Agenda da eliminação, embora discreta, contou com a frenética divulgação nos bastidores da imprensa, com ajuda de alguns cientistas e homens de negócios. Tira o Distrito Industrial e põe a Bioeconomia, a panaceia para os males da Amazônia. Essa proposta de diversificação econômica, embora vetada desde sempre pelo poder central, é um antigo apelo da indústria da ZFM que já tem mais de duas décadas. Se assim não fosse porque embromar 20 anos para expedir um CNPJ? A pedra fundamental da proposta foi lançada com o protagonismo e recursos do setor privado, em 1999, e o projeto era a criação de uma estrutura conectada de empresas públicas de Bioeconomia trabalhando em rede desde o Instituto Butantã, em São Paulo, Manguinhos no Rio, ao Evandro Chagas, em Belém, a partir de Manaus, do Centro de Biotecnologia da Amazônia! Sabe o que se deu até agora? Praticamente nada! 

Pedra no coturno

Quem sabe aonde o coturno aperta é quem anda na floresta gerando riqueza por determinação constitucional, através do Programa Zona Franca de Manaus. Quem quiser colaborar seja bem-vindo mas pergunte aos locais o que é mais emergencial. Abrimos mão dos habituais salvadores da Pátria que a cada instante borbulham em soluções miraculosas através de grandes “especialistas” em Amazônia, e dos empreendedores visionários que se atribuem o entendimento de todos os detalhes que os investimentos normalmente requerem. O buraco, aqui, entretanto, é bem mais embaixo. Remover a ZFM é renunciar aos R$25 bilhões, não o que nos acusam de gastar. Mas o total de riqueza que exportamos para a União e Estado a cada ano, e que ajudam a manter essa máquina pública lenta e ineficaz.

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Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, metalmecânica e de material elétrico de Manaus, e presidente da Federação das Indústrias do estado do Amazonas.

Recursos humanos e flexibilidade burocrática

O empresário Denis Minev tem-se dedicado a dizer que não há milagres na diversificação de uma nova matriz econômica. Há que se ter um tempo de maturação. Recursos de toda ordem, incluindo o fator humano, de modo muito especial, sobretudo os jovens que aqui vivem e estudam na Universidade do Estado do Amazonas, mantida integralmente pela indústria local. Se removerem a ZFM não haverá quem pague a conta. Aliás, não é apenas está conta. Os recursos humanos também incluem os servidores públicos, a pessoa que fica atrás do balcão da burocracia e recebe o empreendedor como aquele que cometeu ou vai cometer algum crime ambiental até segunda ordem, ou prova em contrário.

Infraestrutura adequada

Além disso, diz o economista e empresário Minev, que descende dos Benchimol Minev, uma saga de desbravadores que estão presentes no DNA da transformação do Amazonas, da quebra da Borracha ao desenvolvimento de uma economia sustentável. “Falta infraestrutura adequada para fazer da diversidade biológica a prosperidade social”. Como fizeram os ingleses a partir do Século XIX, depois da invenção do motor a vapor e da vulcanização do látex, duas invenções tecnológicas do melhor calibre, que fez da seringueira a Árvore da Fortuna, pois agregou 60% de valor à economia inglesa na virada para o século XX. Por que, além das invenções miraculosas, eles investiram em infraestrutura de transportes em embarcações mistas de carga e passageiros, adaptadas às condições climáticas e geoestratégicas da Amazônia? Por que estudaram, investiram e estudaram, até hoje. Por que não podemos fazer melhor do que isso, 120 anos depois?

Já bateu um prego empreendedor?

Não é qualquer manobra sorrateira que vai substituir a economia do Polo Industrial de Manaus. São quase 54 anos de muita luta e muitos benefícios para a sociedade local e nacional. Para quem não sabe, ou quem pretende aqui empreender sem jamais bater um prego em qualquer negócio na região, geramos a média anual de faturamento em torno de R$ 100 bilhões/ano, isso agrega cerca de R$ 25 bilhões à economia do Amazonas. Se os incentivos forem suspensos pela caneta do poder, metade das empresas fechariam em dois tempos. A outra metade iria rever sua planilha de cortes para continuar existindo. Perderíamos 50 mil empregos diretos, teríamos um abalo de consequências nefastas na arrecadação local e estadual. E quem vai poder esperar a maturação de, ao menos 10 anos, para repor essa força de trabalho que, dificilmente, escapará da informalidade ou ilegalidade para ganhar o pão de cada dia? Não temos tempo a perder nem razões para acreditar em gnomos.

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