A corrente de comércio exterior do Amazonas começou 2024 em alta, após cinco meses seguidos de depreciações impostas pela crise da vazante. As exportações e importações somaram US$ 1.62 bilhão em janeiro e avançaram 26,56% sobre o dado do mesmo período do ano passado (US$ 1.28 bilhão). Os números são do Mdic e foram disponibilizados pelo site do Comex Stat. Esse foi o maior saldo nominal registrado pela balança comercial amazonense na série histórica do ministério, iniciada em 1997. O valor que mais se aproximou a esse patamar foi o do primeiro mês de 2014 (US$ 1.42 bilhão).

Os resultados positivos vieram das aquisições de partes e peças importadas para o PIM e das vendas externas – de manufaturados, mas principalmente de produtos primários. As exportações totalizaram US$ 85.24 milhões, ficando 13,91% acima de janeiro de 2023 (US$ 74.83 milhões), e 24,33% superiores a dezembro (US$ 68.56 milhões). O melhor desempenho veio das importações, que predominam na balança comercial do Estado. Passaram de US$ 1.21 bilhão (2023) para US$ 1.53 bilhão (2024), escalando 26,45% na variação anual. Frente ao mês anterior (US$ 1.14 bilhão), a decolagem foi de 34,21%.

A análise trimestral, que é usada para captar tendências, também mostrou recuperação para as importações, mas os dados ainda são pouco animadores para as exportações. As aquisições chegaram a US$ 3.32 bilhões nos três meses compreendidos entre novembro de 2023 e janeiro de 2024, 14,48% a mais do que no acumulado de agosto a outubro do ano passado (US$ 2.90 bilhões). A mesma comparação, no entanto, confirmou retração de 9,27% nas vendas externas, com US$ 206.71 milhões contra US$ 225.87 milhões.

Os números sinalizam arrefecimento nos impactos da vazante histórica. Em janeiro, 65,42% das importações do Estado vieram pelo modal marítimo, que saltou de US$ 724.14 milhões (2023) para US$ 1.06 bilhão (2024), no confronto com os valores de 12 meses atrás. Dezembro (US$ 780.40 milhões) já havia mostrado alguma recuperação, após o auge da crise, verificado em outubro (US$ 170.99 milhões) e novembro (US$ 272.64 milhões), que revelou um tombo acima de 80% em relação à média mensal. O valor embarcado pelo modal aéreo, contudo, seguiu elevado, embora tenha declinado 2,70% na comparação anual, com US$ 472.86 milhões (2024) contra US$ 486 milhões (2023).

Pauta primarizada

Dominado por insumos para o PIM, o ranking de importações do Amazonas também teve altas nas aquisições de combustíveis, e manufaturados prontos. Foi encabeçado por circuitos integrados e microconjuntos eletrônicos (US$ 266.49 milhões); óleos de petróleo” (US$ 124.20 milhões); e discos, fitas e outros suportes para gravação (US$ 106 milhões). Com itens 518 listados, a pauta incluiu ainda polímeros de etileno (US$ 105.41 milhões); partes e acessórios para veículos de duas rodas (US$ 76.99 milhões); aparelhos de ar condicionado (US$ 67.34 milhões); celulares (US$ 65.25 milhões); platina (US$ 34.16 milhões); e componentes para eletroeletrônicos (US$ 31.75 milhões).

Em janeiro, a China (US$ 591.79 milhões) renovou sua liderança entre os maiores fornecedores para o PIM, com aumento de 21,61% na comparação com o valor de um ano atrás (US$ 486.64 milhões). Os demais foram Estados Unidos (US$ 136.29 milhões), Vietnã (US$ 115.36 milhões), Rússia (US$ 104.94 milhões), Taiwan/Formosa (US$ 83.22 milhões), Coreia do Sul (US$ 79.46 milhões), Japão (US$ 55.64 milhões) e Índia (US$ 42.45 milhões), entre as 80 nações que venderam diversos produtos ao Estado, no mês passado.

Do lado das exportações, a Alemanha (US$ 26.71 milhões) despontou em um atípico primeiro lugar, e um incremento de 90,33% sobre janeiro de 2023 (US$ 9.20 milhões), graças basicamente ao aumento de suas aquisições de ouro (US$ 26.65 milhões). A China (US$ 15.95 milhões), por sua vez, seguiu comprando quase que exclusivamente ferro-ligas/nióbio (US$ 15.03 milhões). Na sequência estão Argentina (US$ 10.24 milhões), Bolívia (US$ 5.39 milhões), Venezuela (US$ 4.85 milhões) – cujas compras são prioritariamente de produtos básicos não fabricados em Manaus –, EUA (US$ 3.71 milhões), e Colômbia (US$ 3.24 milhões), em uma lista de 63 países.

Ambos os minérios lideraram a pauta de exportações do Amazonas: ouro (US$ 26.65 milhões) e ferro-ligas/nióbio (US$ 15.59 milhões), com taxas de expansão anual de 188,11% e 208,10%, na ordem. Tradicionais carros-chefes do PIM nos embarques ao exterior, em um rol de 343 itens, motocicletas (US$ 9.90 milhões), e preparações alimentícias/concentrados (US$ 8.31 milhões) vieram nas posições seguintes, com tombos respectivos de 42,10% e 41,76%. Os próximos manufaturados do PIM aparecem na sexta, décima, 14ª e 15ª posições em diante – barbeadores (US$ 2,37 milhões), celulares (R$ 1.37 milhões), isqueiros (US$ 843.547) e canetas (US$ 809.692), entre outros.

“Perspectivas melhores”

O diretor adjunto de Infraestrutura, Transporte e Logística da Fieam, coordenador da Comissão de Logística do Cieam, e professor da Ufam, Augusto Cesar Rocha, avalia que os números reforçados de janeiro se devem, pelo menos em parte, ao “ao conjunto de cargas retidas durante a seca de 2023”. Ainda assim, o especialista considera que “o fluxo inicial” indica “ótimas notícias” e ensejam “bastante otimismo” em relação ao potencial de crescimento do comércio exterior amazonense em 2024.

“Entendo que o momento é muito positivo e há perspectivas bem melhores agora do que no final do ano passado. Dizem que o ano começa depois do Carnaval, mas o baixo desemprego deve aquecer vários dos subsetores predominantes do PIM. Há uma queda nos preços de algumas ligas metálicas no mercado internacional, e isso deve seguir aumentando o fluxo deste setor. Há também um momento positivo para motocicletas e eletroeletrônicos, o que deve impulsionar bem o PIM.  A nova política industrial, com suas missões, deve amplificar algumas de nossas cadeias produtivas. E, se forem feitas as correções na infraestrutura – ao longo do primeiro semestre – poderemos ter um ano muito positivo”, afiançou.

Em entrevista recente à reportagem do Jornal do Commercio, o gerente executivo do Centro Internacional de Negócios da Fieam, reforçou que a crise da vazante foi decisiva para minar os resultados do comércio exterior. “Para se ter uma ideia, algumas grandes redes varejistas de departamentos do país não receberam suas encomendas do Distrito [para o Natal], em função das dificuldades de transporte por esse motivo”, apontou, acrescentando que a variação do câmbio não foi tão significativa para o resultado final.

O executivo salienta, entretanto, que o cenário que se abre em 2024 é positivo para a balança comercial do Amazonas. “Deve haver melhora, em decorrência de abertura de novos mercados na América Latina, União Europeia e EUA, em função do aumento da demanda. Também houve mudança no governo argentino que, acredito, pode gerar algum aumento na nossa corrente de comércio exterior. O cenário é de muita esperança para que o Estado possa, na pior das hipóteses, manter os níveis de comércio com crescimento vegetativo de 5% a 10% [em seu volume de transações internacionais]”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio

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