Por fim, a contribuição da Amazônia para o clima já está colocada. Com os dois compromissos assumidos pelo Brasil, só teremos a ganhar se sairmos do discurso para a prática efetiva da gestão inteligente de nossos recursos naturais. De quebra, teremos mais facilidade de investimento para implantar a Bioeconomia com o aproveitamento de nossa diversidade biológica, deixando claro que não iremos depredar natureza.

Nelson Azevedo
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Trata-se de conversa pra boi dormir? Está na hora de conferir e comentar. Ausente da cerimônia de abertura e das comissões que iriam debater a questão climática do planeta (a COP26) o governo brasileiro surpreendeu a opinião pública mundial ao assumir assinar/endossar o acordo de redução de 30% de emissões do gás metano e do combate global ao desmatamento, anunciando zerar o desmatamento da floresta até 2050. A boa surpresa é que a decisão está em desacordo com a política ambiental praticada até aqui. Um ambientalismo equivocado que já vai tarde. Houve um rumor de descrença e deboche na sequência da assinatura dos acordos, colocando em dúvidas seu cumprimento. Como dizem nossos ribeirinhos, quando a oferta é demasiada até o santo santo ficar de pé atrás. Acordos assinados e desafios pela frente.

Vigiar e orar

Resta, pois, a todos nós – além da contribuição de cada um nessa cruzada de ambientalismo cívico e universal – vigiar e orar para que as promessas se transformem em condutas efetivas sejam quais forem os rumos da refrega política. No caso do desmatamento, que tem crescido constantemente nos últimos governos, a anuência do Brasil é até compreensível. E a cobrança pela mudança partiu de setores progressistas do agronegócio pois a crise hídrica pode condenar seus interesses. Aos poucos fica mais evidente que a escassez da água está diretamente relacionada à redução da cobertura vegetal da Amazônia. Os rios voadores somente em outubro voltaram a decolar em algumas regiões mas estão muito longe do desempenho de outros anos. Sem água, a economia do Centro-Oeste entra em pânico e os reservatórios da energia hidrelétrica deixam as barragens obsoletas. O fator irônico é ver nossas contas de energia na Amazônia com itens de cobrança por conta da crise hídrica, quando mal acabamos de sair da maior enchente de nossos rios nos últimos 90 anos.

Pressões diplomáticas

É bem verdade que os Estados Unidos agiram intensamente no campo diplomático, mostrando ao Brasil as vantagens da aproximação na política ambiental. Ainda mais com a adesão do Congresso americano com o pacote trilionário do governo Biden de infraestrutura de combate à mudanças climáticas. Continuar isolado significaria ao governo de Jair Bolsonaro perder interlocução e oportunidades. Internamente, ponderando os abalos do agronegócio, a adesão do governo à proposta de redução do metano em 30% até 2030, deixou os empresários do Centro- Oeste em polvorosa. Não é novidade que a emissão de metano, provocada pelo arroto e flatulência bovina, é quase 30 vezes mais comprometedora do que o gás carbônico. Isso implica em 70% de emissões do Brasil. Todos sabem também que a Embrapa, a maior empresa global de tecnologia agropecuária, tem pesquisas avançadas para resolver o problema. Entretanto, essas técnicas são adotadas por um percentual irrisório de pecuaristas. Agora pode ser diferente.

É melhor mudar do que naufragar

Essa mudança de perfil ambiental do governo federal foi implementada pelo corpo diplomático brasileiro, o bom e velho Itamaraty. É melhor mudar do que naufragar, dizem eles. A mudança de rota, rumo e bússola teve ainda as digitais da atual gestão do Ministério do Meio Ambiente. Esses detalhes ajudam a compreender o óbvio: temos muito a ganhar com essa mudança e a possibilidade real de contribuir para o clima experimentar medidas efetivas de combate ao aquecimento global. O Brasil chegou em Glasgow como um pária ambiental. E, como quem não quer nada, deixou o clima, além de aquecido e positivamente confuso.

ESG – Ambiental, social e governança

Em seu artigo semanal publicado no jornal espanhol El País, o presidente da Confederação Nacional da Indústria, CNI, Robson Andrade, vai na mesma direção, reforçando a necessidade de novas posturas que incluam, de modo participativo e com responsabilidades divididas, ações ambientais, sociais e de governança. Temos saídas, com certeza. E todas são compartilhadas. Não há outro caminho. O modo avestruz de equacionar problemas de monta está superado. Ainda bem. Ninguém pode se isolar diante de desafios tão magnânimos. Ou pensamos e agimos coletivamente, ou pereceremos todos.

Risco de sobrevivência

Quanto às medidas que competem a todos nós que empreendemos na Amazônia, a tarefa é árdua e a prontidão não tolera descanso. A notícia que afirma, com indicadores científicos, que a Amazônia está emitindo mais do que absorvendo os gases do efeito estufa, é aterradora. Isso vai aumentar a temperatura inviabilizando nossa capacidade de resistir ao desastre e suportar o calor. Nossa economia, baseada em contrapartida fiscal, é endossa pelo mundo. O programa Zona Franca de Manaus (ZFM) é aplaudido por seu desempenho socioambiental. Essa modelagem da pecuária tradicional e vesga implica em desmatar a floresta, depreciar o solo e comprometer o agronegócio do Centro-Oeste. Por isso, a mudança na banda veio em boa hora.

Pecuária de leite e de corte

Graças à Embrapa, temos experiências vitoriosas no sul do Amazonas com a tecnologia inovadora da LPF, lavoura, pecuária e floresta, por exemplo. Há quase uma década adotamos a pecuária de leite, e conseguimos expandir o aproveitamento maior da lucratividade em commodities bovina com o mínimo de utilização da terra. É tolice sem propósito desmatar para fazer pecuária de corte em largas extensões na Amazônia. O gado confinado e à sombra não representa problema climático e sim sucesso na performance financeira.

foto: Shutterstock

Hora e vez da Bioeconomia

Por fim, a contribuição da Amazônia para o clima já está colocada. Com os dois compromissos assumidos pelo Brasil, só teremos a ganhar se sairmos do discurso para a prática efetiva da gestão inteligente de nossos recursos naturais. De quebra, teremos mais facilidade de investimento para implantar a Bioeconomia com o aproveitamento de nossa diversidade biológica, deixando claro que não iremos depredar natureza. Seria insano. Vamos sim desenvolver inovação tecnológica para imitar as soluções da microbiologia na Amazônia, seus protótipos vitais que responderão as demandas mundiais de alimentação funcional, dermocosmética do rejuvenescimento e a farmacopeia milagrosa da saúde humana, com sustentabilidade e a caminho da prosperidade.

Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM.

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