A retomada da atividade industrial logo após a pandemia do Covid-19 vai ser um dos maiores desafios já enfrentados pelo setor: quem souber se posicionar de maneira adequada tem maiores chances de acertar o reinício. Um bom resultado vai depender também de medidas efetivas de apoio ao emprego e uma forte injeção de recursos públicos na economia. Essas foram algumas das conclusões do debate promovido na última quinta-feira (07) pela Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), com o tema ‘A indústria amazonense pós-Covid-19’.

No melhor dos cenários, pode ser que aconteça um grande reaquecimento da indústria local e da indústria nacional na pós-pandemia, na avaliação do professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e diretor da FIEAM, Augusto Rocha, à frente do debate virtual, que contou com participação do empresário e vice-presidente da FIEAM, Nelson Azevedo. “Eu diria que o momento é de apreensão e, no fundo, com uma esperança de que (a pandemia) acabe logo e a gente consiga reconstruir e tornar mais forte toda essa estrutura industrial, porque toda crise acaba e toda crise nos deixa mais fortes”, disse Rocha.

Para Nelson Azevedo, as crises aceleram decisões que em épocas normais levam anos de debates. Tanto as indústrias quanto os consumidores, disse ele, foram pegos de surpresa e tiveram pouco tempo para se adaptar a uma nova rotina de trabalho, de lazer, de consumo e cuidados com a própria saúde. “O mercado está se ajustando a essa nova forma de fazer negócios, onde novos nichos de consumo estão surgindo enquanto outros ganham musculatura, como o segmento farmacêutico e de produtos para a saúde”, disse Azevedo.

Uma coisa é certa, disse o vice-presidente, o consumo das famílias não será o mesmo na pós-pandemia. “As indústrias também terão que rapidamente identificar as novas tendências sob pena de ficar com estoque encalhado, com risco de obsolescência. As indústrias terão que identificar essas novas tendências no comportamento do consumidor, produzir o que está sendo demandado e buscar a inovação. Nas grandes crises é que surgem as oportunidades, então é o momento de inovar”, defendeu.

Precisamos chegar vivos

A crise atual, na avaliação de Augusto Rocha, tem todos os elementos para deixar o Polo Industrial de Manaus e a própria indústria nacional muito mais fortes. “É muito importante acreditar e perceber isso, mas precisamos chegar vivos, precisamos de recursos, de preferência, de ‘dinheiro impresso’ pelo Estado, para manter os empregos”, disse, referindo-se à proposta que vem defendendo de que o governo deve injetar liquidez na economia, comprando títulos privados para girar a máquina. Rocha disse que, se o governo quisesse – “e existe uma análise das contas públicas que fizemos sobre isso” – poderia pagar os salários de todos os trabalhadores brasileiros por até três meses, porque o Tesouro Nacional tem recursos para isso, o que falta é coragem para fazê-lo, disse ele.

Segundo o professor, a questão do emprego na crise provocada pela pandemia é outro grande desafio para o qual ninguém tem uma resposta ou uma solução de unanimidade, mesmo o mundo inteiro em permanente debate sobre o tema. “Nós precisamos construir essa solução de unanimidade ou de consenso mínimo para transformar essa realidade e enfrentar o desemprego que bate à porta da mão de obra informal, que é a grande parte da mão de obra no Brasil, e também da mão de obra formal dos setores mais atingidos pela crise, em especial as micro, pequenas e médias empresas”, disse o professor.

A manutenção do emprego dependerá de uma intervenção mais forte e, por isso, segundo Augusto Rocha, uma parcela expressiva da sociedade tem pedido a reabertura do comércio, “e nós sabemos que essa não é a decisão mais acertada do ponto de vista de saúde”. Para ele, essa discussão que ocorre hoje no Brasil inteiro é muito primitiva, como se bastasse a volta ao trabalho para que a retomada da economia aconteça. A economia não funciona como num passe de mágica”, disse ele.

Rocha disse que o receio causado por esses dois meses de economia fechada leva à constatação de que se não houver uma injeção forte de recursos públicos na economia os empregos desaparecerão nos meses seguintes ao fim da pandemia. “Nós precisamos de fato de apoio mais incisivo para as empresas após o retorno da atividade, da retomada do investimento em obras públicas para reativar a economia porque os recursos das próprias empresas estarão voltados para manter sua operação e não para fazer investimentos”.

Perde-ganha

Ao falar da dinâmica da economia, no balanço entre os setores que mais perdem e os que mais ganham na pós-pandemia, Augusto Rocha disse que a balança vai favorecer quem souber se posicionar de maneira correta para este reinício. “Estes têm grandes chances na retomada da economia. Quem errar nesse reposicionamento, ou não fez o dever de casa durante a pandemia, fatalmente vai desaparecer do mercado”, disse. Na prática, segundo Rocha, com os estoques hoje abarrotados, o grande desafio para a atividade industrial será reconfigurar suas cadeias de suprimento e mantê-las baratas.

Na crise, quem mais está perdendo, sem dúvida, avaliou o professor, é o setor de turismo e seus associados, como hotéis, fornecedores, restaurantes, empresas de táxi. Na sequência, as empresas aéreas porque as viagens de turismo vão continuar paradas ainda por um bom tempo. “E o que vai acontecer depois da pandemia ninguém sabe, as pessoas vão querer voltar a viajar?”, indagou.

“Por outro lado, a gente vê pessoas ganhando muito no curto prazo, como o setor farmacêutico e hospitalar. Mas não deixa de ser um ganho nervoso, com preocupação se as empresas vão conseguir comprar de maneira adequada e com isso ter problemas de crédito no médio prazo”, avaliou.

Outras empresas que faturam na crise, na avaliação do professor, são as que estão ligadas à tecnologia da informação e os processos de transformação digital que levam empresas a usar mais a internet. “Companhias, como a Amazon, estão crescendo de maneira avassaladora, com suas ações muito valorizadas. Empresas que vendem pela internet recursos de TI também têm tido grande produtividade”, avaliou.

Entre os setores que representam uma grande incerteza para o futuro, Augusto Rocha citou o de petróleo, que experimentou preços negativos nas últimas semanas. “O que vai acontecer com a indústria de energia, de gás, por exemplo, como vai ficar a indústria automobilística, nesse contexto, será que vão conseguir retomar as vendas que caíram de maneira assustadora?”, questionou.

Ao responder a uma das questões levantadas pela audiência, na live, quanto à ameaça de compra de empresas nacionais por fundos de investimentos estrangeiros, Augusto Rocha disse que a desvalorização do real torna essa ameaça possível. “Tudo fica muito barato para estrangeiros, para comprar a Embraer, a Petrobras, enfim, quem tem recurso pode adquirir o Brasil de maneira muito forte”, disse. Comprar os falidos, como disse na live o pesquisador Stefan Keppler, mas também os rentáveis. “A indústria nacional está muito ameaçada neste momento porque está muito barato comprar uma empresa brasileira”, disse.

Segundo Rocha, no Polo Industrial de Manaus, as empresas estão extremamente nervosas, reconfigurando as suas cadeias de suprimento. “E eu acredito que vai existir, no médio prazo, uma verticalização dessas cadeias, o que não deixa de ser uma mega oportunidade para o PIM”.

Nelson Azevedo lembrou que a Zona Franca de Manaus quando foi criada tinha como grande mérito ser “substituidora de importação”. “Quando se fala em abertura da economia nós temos que olhar como isso deve ocorrer. Nós já tivemos uma indústria de bens intermediários bem mais forte e que perdeu competitividade. Só precisamos olhar as oportunidades e ver de que forma vamos reduzir o custo Brasil, a burocracia, a carga tributária, previdenciária, tudo que onera, para atrair para o PIM a indústria nacional”, disse o vice-presidente da FIEAM.

Para Augusto Rocha, de fato, o momento é muito oportuno para a indústria nacional e para novas indústrias virem para o Polo Industrial de Manaus, uma vez que, além da oportunidade de produzir com os incentivos fiscais do modelo Zona Franca, estarão operando em real e não em dólar.

Infraestrutura pífia

O problema com o PIM e a Zona Franca continua sendo a logística da região, de acordo com Rocha. “O Norte do Brasil é muito isolado do restante do país. Vivemos um século de falta de investimento em infraestrutura. É um problema histórico na nossa região. Pouco ou nada se investe em infraestrutura de transporte, e o que temos é o investimento pífio ao longo de décadas. Esse é o desafio que perdura no momento presente”.

Outro desafio que fica para a pós-pandemia é transformar o Estado brasileiro, pesado, caro. “Nós estamos acostumados com governos muito pesados nas costas, pesado e caro”, disse Rocha. Em sua avaliação, o que vai surgir depois desse momento de crise deve ser uma nova consciência coletiva do país frente a esse cenário. “Espero que tenhamos a capacidade de simplificar a burocracia, de dar mais liberdade para as empresas e que as pessoas aumentem o seu nível de poupança para que possam estar mais preparadas para enfrentar momentos como esse que estamos vivendo”.

Ao encerrar sua participação no debate, Augusto Rocha disse que é grande a oportunidade para a indústria brasileira renascer e que esse renascimento virá a partir da simplificação da burocracia, da retomada da produção no solo brasileiro, a partir da verticalização de processos que foram transferidos para mercados estrangeiros quando temos capacidade, conhecimento e tecnologia nacional para fazer isso.

“A indústria nacional pode ser sustentável”, disse Augusto Rocha. “E pode contar com o apoio da universidade brasileira, desde que se permita maior participação da academia nos meios produtivos. A universidade brasileira não vem sendo explorada porque os marcos legais nos atrapalham muito. Precisamos de governos que apoiem o ensino, a tecnologia e a produção”, disse o professor.

O momento, disse o professor, é de reflexão e consternação. “A gente está no meio de uma tragédia. É assustadora a perda de vidas no nosso país, mas precisamos seguir adiante, precisamos dar os próximos passos. Passada a consternação, precisamos tirar lições: o Brasil nunca viveu uma grande guerra em seu território. Temos pequenos registros de guerra na nossa história, mas nós temos uma grande história de vitórias nessas guerras que o Brasil enfrentou. Nós estamos no meio de uma grande guerra, com perdas de vidas, e precisamos transformar isso numa vitória. E o último desafio é como transformar isso numa vitória para todos nós que sobreviveremos”, disse.

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