O modelo ZFM é um modelo bem-sucedido, porém suscita várias opiniões sobre a necessidade da busca urgente de novas matrizes econômicas que se somariam às atividades das mais de 500 empresas industriais instaladas no Amazonas. É uma questão sempre em pauta, principalmente agora em que tramita a reforma Tributária no Congresso Nacional, em Brasília.

No entanto, surpreendentemente, o secretário executivo de Estado de Desenvolvimento, Gustavo Igrejas, ressalta que a vocação econômica do Amazonas é, na realidade, industrial, ao contrário das bandeiras levantadas por muitas lideranças representativas da política e da classe empresarial da região.

Em geral, praticamente todos apostam na exploração sustentável da rica biodiversidade, mas se esquecem que nenhuma outra atividade é capaz de agregar a médio prazo tanta riqueza como a Zona Franca, segundo o secretário.

“Em 57 anos de existência da ZFM, o Amazonas está entre os sete Estados que mais remetem recursos para o governo federal do que recebem. Em 2011, o faturamento foi recorde chegando a US$ 41 bilhões”, destaca Igrejas.

Para o secretário, é importante também investir na bioeconomia, agregando valor aos insumos da floresta, mas ao longo de mais de cinco décadas a ZFM formou uma mão de obra qualificada eficiente, inovadora, hoje sem similar no Brasil, em constante inovação tecnológica.

“Se fosse um país, a Zona Franca seria a 108ª economia do mundo. E está na frente de 40 PIBs mundiais”, acrescenta o secretário. Segundo ele, é preciso desconstruir narrativas de que o modelo incentivado do Estado dá prejuízos ao Brasil, mas que na realidade alimenta uma abissal cadeia econômica produtiva, gerando empregos e renda no Amazonas e em outras regiões do país.

“Temos que lutar contra essas fake news, em parte geradas pelo nosso próprio comodismo na divulgação das potencialidades da Zona Franca”, defende ele. Igrejas afirma que a indústria adensada no Amazonas é de transformação. Quase todos os componentes usados na fabricação de produtos, principalmente de duas rodas, são desenvolvidos aqui por profissionais altamente qualificados.

“Temos que ver a agregação de valor existente hoje na indústria. As fábricas não são meras montadoras, como muitos alegam. Produzem praticamente tudo o que se transforma em mercadorias de exportação”, garante o secretário.

Gustavo Igrejas participou da live ‘JC às 15h’ do streaming JC, comandada pelos jornalistas Caubi Cerquinho e  Fred Novaes, diretor de  redação do Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – A Zona Franca de Manaus está sempre no centro das discussões, principalmente agora com a tramitação da reforma Tributária. Como avalia as atividades da indústria?

Gustavo Igrejas – Estamos passando por um momento de maturação, de uma virada de tecnologia, quebrando paradigmas. Temos, hoje, uma Zona Franca de Manaus que foi se adequando a diversas situações na economia.

De 1990 a 1991, teve a abertura econômica do governo Collor, saímos de 100 mil empregos para 40 mil empregos, junto com as impressoras automáticas. Começou o processo produtivo básico, renovando-se na crise de 2008, de novo em 2016.

A virada de tecnologia aconteceu com a internet. E a indústria 4.0 tem se adequado a essa nova realidade. E quem não se adequar, vai ficar para trás. Vimos muitas empresas nascendo e morrendo.

Há muitas empresas 4.0. O faturamento chegou a US$ 34 bilhões. Agora, a ZFM está abrigando cada vez mais trabalhadores. Temos 110 mil empregos. Hoje, a mão de obra é muito qualificada. Você emprega menos, mas gera mais renda.

Recentemente vi uma empresa do polo onde a linha de produção é praticamente toda robotizada. Já há muita robotização. Tinha mais de 20 pessoas trabalhando, hoje são apenas quatro, que fazem o trabalho de mais de 20 operários.

JC – Há muitas fake news sobre a ZFM. Argumentam que o modelo dá prejuízos à economia do Brasil. Como derrubar essas narrativas e convencer a opinião pública brasileira de que o projeto é próspero, gera empregos e renda na região e também em outros Estados?

GI – O grupo de trabalho da reforma Tributária veio conhecer de perto a Zona Franca, recentemente. E pôde ver o quanto o modelo contribui para a economia do Brasil. Temos que ver a agregação de valor. No polo de duas rodas, 96% das fábricas não são montadoras de bicicletas, mas agregam a produção também de componentes usados na fabricação de produtos.

É tudo fabricado aqui. É uma indústria de transformação. O incentivo só acontece quando se vende os produtos, diferente de outras ZFMs. Não se tem incentivo, o risco é todo do empresário.

A ZFM coloca o Amazonas entre os sete Estados que mais remetem recursos para o governo federal do que recebem. São três Estados do Sudeste e três do Sul. Temos qualificação de mão de obra extremamente elogiada no mercado, entre elas na Honda, BIC, Essilor. Aqui não é um paraíso fiscal, e sim paraíso do fisco. Aqui é o lugar mais bem controlado para se produzir no Brasil.

Existem alguns erros que são cometidos por nossa comunicação com todas as esferas de governo. Temos que mostrar a agregação de valor, com  muitos argumentos, para provar que a ZFM é exitosa.

Em 2011, o faturamento da Zona Franca de Manaus foi recorde, chegando a US$ 41 bilhões. Se fosse um país, seria o 108º do mundo, fica na frente de 40 PIBs mundiais.

Com toda a crise, está entre as 100 maiores economias do mundo.  É isso que as pessoas não conseguem ver. Fala-se muito na busca de novas matrizes econômicas, concordo, claro.

Mas todo  o turismo do ano passado no Brasil faturou menos que a Zona Franca. Hoje, depois de 57 anos de existência da ZFM, nossa vocação é industrial. Em nenhum lugar do Brasil se tem tanta concentração de mão de obra treinada como aqui no amazonas

As pessoas precisam entender isso. Esse preconceito vem do Sul e Sudeste, e muito em parte por nossa culpa, porque a gente não consegue se defender.

JC – Na última reunião do Codam, você apresentou números sobre a economia e perspectivas do Amazonas. Como está a relação com essas potencialidades, a inserção da ZFM no polo e a importância para o Brasil?

GI -Ótimo, o Codam sempre tem uma apresentação antes da pauta. Reuni uma questão muito interessante. Hoje, o segmento que mais fatura na ZFM é informática, com 29%, eletroeletrônicos com 18%, duas rodas com 15%, e plásticos 8%.

Mostrei a série histórica desde 1985 sobre essa participação de quase 40 anos de história. E se vê a evolução da Zona Franca. A fronteira tecnológica é muito clara nas curvas. Quantos produtos o celular substitui fazendo tudo hoje?

É uma tendência para o futuro. Alguns produtos começam a ter fronteiras tecnológicas e não sabemos quando vão virar. Alguns estão tendo evolução tecnológica que não sei onde vai parar.

Hoje o polo está caminhando firmemente nessa nova fronteira. A minha grande preocupação é se vamos acompanhar essa virada. Outros produtores ficaram para trás. A Videolar acabou indo para a petroquímica porque percebeu que ficaria para trás. Estamos acompanhando essa transformação de fronteira tecnológica.

JC – A ZFM sempre depende da administração de Brasília, uma falta de autonomia, principalmente em relação aos PPBs. Há perspectiva para que essa virada de chave seja mais facilitada para as indústrias?

GI – É uma questão sensível para eu comentar. Foi algo que foi deixando espaço. E, infelizmente hoje, temos a Suframa, que antes tinha autonomia, mas não tem a mesma autonomia. É mais uma questão política. E traz alguns prejuízos.

E como vencemos? Com apoio político. Temos um político no cargo. Se vence com apoio político ao superintendente. Temos que pensar em uma mudança.

Se você pegar o histórico sobre o PPB, que está durando 32 anos, vemos impactos. É a contrapartida mais longeva que temos e está extremamente ultrapassada. Já é um entrave, não era para ser. Era para  ser um vetor de desenvolvimento.

Só que a morosidade com que o PPB é feito prejudica e pode trazer impedimento ao crescimento da Zona Franca. Está mais do que na hora de mudar essa perspectiva do PPB, um instrumento que já está extremamente ultrapassado.

Precisamos criar um mecanismo de agregação de valor para substituir o PPB, com decisões no Conselho da Suframa.

JC –  O governo montou um bom time na Sedecti. Quais as expectativas do órgão de ser mais um ente na atuação em defesa da ZMF? Como está essa atuação focada no PIM?

GI – Temos buscado trabalhar para trazer modernidade à secretaria, celeridade aos processos. Então, essa atuação será muito voltada para a área industrial.

Na verdade, tem que ter um papel de indutor de desenvolvimento, não atrapalhando as empresas. Há outras áreas de interiorização das atividades.

Estamos trabalhando a questão do zoneamento econômico e ecológico, atuando na cadeia da borracha, do  açaí e do pescado. Damos muitos apoios em Manicoré, por exemplo. Toda semana, temos reuniões para aprimorar os trabalhos.

Fonte: JCAM

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