A indústria de bicicletas do PIM esboçou nova reação em março, mas confirmou recuo de produção. O Polo Industrial de Manaus entregou 56.492 bicicletas unidades e até conseguiu escalar 41,7% em relação a fevereiro (39.860), mas teve cinco dias úteis a mais em seu favor. A comparação com o mesmo mês do ano passado (57.870) registrou retração de 2,2%, mesmo com a base de comparação tendo sido comprometida pelos impactos da terceira onda de covid-19. Os dados são da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares).

O desempenho do trimestre não foi melhor. De janeiro a fevereiro, saíram 134.988 bicicletas das linhas de montagem do parque industrial de Manaus, 26,2% a menos do que o apurado nos três meses iniciais de 2022 (183.019). Diante da nova performance negativa, a entidade empresarial mantém a estimativa de chegar ao final de 2023 com apenas 570.000 bicicletas fabricadas, o que representaria uma retração de 4,8% ante 2022 (599.044). Em contraste com os indicadores de produção e vendas internas, as exportações de bicicletas acumularam alta anual, embora tenham desacelerado no mês.

O polo de bicicletas da indústria incentivada de Manaus conta atualmente com quatro fabricantes – Caloi, Sense Bike, Oggi Bikes e Houston Bike –, que respondem por 40% da oferta do segmento em todo o país. Depois de começar 2022 com projeções de crescimento de dois dígitos (+17,4%), o segmento começou a derrapar desde abril do ano passado, e já emplacou 11 meses seguidos de retração. Como resultado, acabou fechando o ano em campo negativo e começando 2023 no mesmo ritmo, enquanto o polo de motocicletas colecionava novo recorde de produção em ambos os periodos.

Na análise da Abraciclo, um dos motivos para a performance negativa é a resiliência na crise de abastecimento de insumos. Diferente das motocicletas, as bicicletas têm 50% de seus insumos importados. O outro seria o deslocamento da demanda do mercado doméstico para produtos de maior valor agregado, em detrimento de “modelos de entrada”. Tanto que as exportações voltaram a fechar no azul. Vale lembrar, contudo, que algumas linhas de produção de bicicletas – notadamente as de modelos sem marchas – ficaram de fora da lista de produtos da ZFM salvaguardados da perda de competitividade proporcionada pelos decretos de redução do IPI.

Categorias e exportações

O mercado brasileiro continuou apostando nas Moutain Bikes, em março. Essa foi a categoria que liderou o ranking de produção, com 38.195 unidades e 67,6% da oferta. A produção acelerou 8,1% ante fevereiro de 2023 e decolou 52,7% diante de março de 2022. Foi seguida pela Urbana/Lazer (12.165 e fatia de 21,5%) e pela Infanto-Juvenil (3.961 e 7%). Com altas de dois e três dígitos nas variações mensal e anual, a categoria Elétrica (1.074 e 1,9%) já aparece estatisticamente empatada com a Estrada (1.097 e 1,9%), na quarta colocação. As posições foram mantidas no ranking do acumulado do ano.

O Sudeste ainda é a região que recebe o maior volume de bicicletas do PIM. Foram enviadas 29,704 unidades para lá, no mês passado, o que corresponde a 52,6% do total – contra os 75% contabilizados em fevereiro. Na sequência estão o Sul (10.057 e 17,8%), Nordeste (9.407 e 16,7%), Centro-Oeste (5.315 e 9,4%) e Norte (2.009 e 3,6%). Não houve alteração de posições no ranking do comparativo dos três meses iniciais deste ano.

As vendas de bicicletas “made in ZFM” para o mercado estrangeiro desaceleraram 86,4% entre fevereiro (2.222) e março (302), embora tenham disparado 492,2% ante o mesmo mês de 2022  (51). Conforme o portal Comex Stat, os principais destinos foram Uruguai (222 unidades e 73,5%) e Bolívia (80 e 26,5%). As vendas externas do trimestre (3.642), entretanto, voltaram ao campo positivo e subira 4,3%. Com posições invertidas, os mercados preferenciais também foram Bolívia (1.318 e 33,4%) e Uruguai (792 e 20,1%).

Segundo semestre

Em entrevista exclusiva à reportagem do Jornal do Commercio, o diretor executivo da Abraciclo, Paulo Takeuchi, já havia lembrado que a combinação do “problema mundial” do abastecimento com a “alteração da curva da demanda doméstica” forçou os fabricantes do PIM a reprogramar seu mix de produtos, em um processo que “não ocorre de uma hora para outra.” De acordo com o dirigente, foi necessário que a indústria alterasse todo seu planejamento, da cadeia logística às linhas de produção, em meio a uma conjuntura econômica de perda de poder de compra das famílias e aumento nos níveis dos estoques de modelos de entrada em lojas e centros de distribuição.

Por meio da assessoria de imprensa da Abraciclo, Paulo Takeuchi, salientou que os resultados atingidos pela indústria de bicicletas do PIM em março ficaram dentro do esperado. “As perspectivas para os próximos meses ainda continuam sendo de ajustes de produção, em função da demanda por produtos de maior valor agregado. São justamente itens que ainda dependemos de alguns ajustes de insumos. Porém, acreditamos que vamos conseguir fazer isso, ao longo dos meses e gradativamente. Esperamos ter um desempenho melhor no segundo semestre, embora nossa previsão ainda seja de ter números abaixo dos alcançados no ano passado”, ponderou.

Em comunicados de imprensa recentes, por outro lado, o vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo, Cyro Gazola, salientou que a base de comparação dos anos anteriores foi fortalecida pela pandemia, dificultando crescimentos. De acordo com o executivo, o segmento teria atingido o seu auge nos meses mais duros da crise sanitária e das medidas de isolamento/distanciamento social, quando a bicicleta se tornou “a grande parceira para o lazer, nos deslocamentos e na interação com a família”.

Verticalização e importados

O presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus, e vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, assinala que, antes da atual crise, o polo de bicicletas vinha em “franca expansão”, em função da demanda por atividades físicas e meios de mobilidade urbana econômicos. No entendimento do dirigente, a inflação não permitiu mais espaço no orçamento do consumidor que buscaria modelos de menor valor.

Mas, Azevedo se mostra mais otimista e diz que a tendência é a maior verticalização de processos. “As indústrias sinalizaram a necessidade de atrair fornecedores de componentes para Manaus, visando o adensamento da cadeia produtiva e a redução da dependência de importações. Acreditamos que esse é o caminho. Temos indústrias estabelecidas com capacidade instalada disponível, mão-de-obra treinada e preços competitivos”, asseverou.

Já o ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Junior, considerou que a crise do IPI foi fundamental para a queda de produção, ao fazer com que o PIM perdesse mercado para os importados, nos produtos mais baratos. “Isso, somado aos juros altos, fez as empresas analisarem seus custos de oportunidade e revisarem seus planejamentos estratégicos para competir nos segmentos de maior valor agregado, por meio de ganhos de escala”, finalizou.

Por Marco Dassori

Fonte: JCAM

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