Evaldo Ferreira

O município de Novo Airão se notabilizou pelos estaleiros que existiram na frente da cidade durante décadas, mas poucos sabem que foram dois portugueses os precursores deste tipo de ofício tão importante para a navegação amazônica.

“Augusto Martins, meu avô materno, e Malaquias Rocha da Silva, meu avô paterno, ambos portugueses. Eles ensinaram a arte de construir embarcações para meu pai Sebastião Rocha da Silva, que começou a construir embarcações no Manaquiri, e só depois mudou aqui para Novo Airão”, recordou Antonio Maria, 68, hoje o principal construtor naval de Novo Airão, que desde a infância ajudou o pai nesse ofício.

“Quando meu pai mudou para cá, em 1953, aqui ainda era uma vila e se chamava Freguesia. Dois anos depois, em 19 de dezembro de 1955, foi criado o município, que recebeu o nome de Novo Airão porque muitos moradores de Airão, 100 km rio acima, estavam se mudando para a vila, por isso lá ficou conhecido como Velho Airão e se tornou um local abandonado”, contou.

Naquele início da década de 1950 o município de Manaquiri ainda não existia, pois só foi criado em 1981. O que havia no local era a Vila do Jaraqui, que deu origem à atual cidade, sede do município. Era lá que Sebastião morava, com a família.

“Ele mudou do Manaquiri pela dificuldade em adquirir madeira boa para construir as embarcações. Como soube que essa região aqui era rica em itaúba preta (Mezilaurus itauba), a melhor madeira para esse trabalho, não pensou duas vezes em se mudar para cá, trazendo, inclusive, outros parentes. Da itaúba preta se aproveita até os galhos”, revelou.

Itaúba preta, a melhor

A amazônica itáuba preta também é conhecida por louro itaúba, itaúba amarela, itaúba abacate, e lorê. Sua madeira é muito pesada, de resistência e durabilidade alta, e imune a ataque de xilófagos (insetos que comem madeira) por isso é indicada para construções que precisam de muita resistência como estrutura de pontes, dormentes, postes, cruzetas; em construção civil: vigas, ripas, caibros, tábuas, tacos para assoalhos, marcos de portas e janelas; construção de veículos e implementos agrícolas; construção naval: embarcações; fabricação de peças torneadas, móveis, guarnições, e defensas. A árvore pode atingir até 40 metros de altura e seu tronco reto e mais ou menos cilíndrico chega a 60/80 cm de diâmetro.

“Se alguém disser que estamos devastando a floresta ao fazer um barco de madeira, isso não é verdade, pois uma árvore de itaúba só serve para a construção ao atingir o seu diâmetro máximo, que é de 80 a 90 cm de diâmetro. Menos do que isso, não derrubamos, esperando que ela chegue ao tamanho necessário. Nessa medida dá para fazer um barquinho de doze metros”, afirmou.

“O que atrapalhou os empreendimentos navais de Novo Airão foram os madeireiros que tiravam todos os tipos de madeiras das árvores das ilhas de Anavilhanas. Nesse caso eu concordo plenamente que os órgãos de fiscalização precisam agir se não eles acabam mesmo com as madeiras, porque tiram de todas as espécies, sem critério algum, inclusive enganando compradores afirmando que estão vendendo itaúba preta, mas na realidade é outra variedade, de qualidade bem inferior”, avisou.

“Nós moramos e trabalhamos aqui há décadas. Não temos interesse algum em extinguir a matéria-prima que são as madeiras utilizadas na construção de embarcações, pelo contrário, somos os maiores beneficiados com a proteção delas”, garantiu.

Ótimo investimento

Segundo Antonio Maria, Novo Airão chegou a ter entre 16 e 17 estaleiros produzindo embarcações nos tempos áureos do segmento entre as décadas de 1960 e 1970.

“Em 1973 construí a minha maior embarcação, um gelador de 33 metros, denominado de Rei das Águas. Hoje, nem sei quantas embarcações produzi”, disse.

“Em 1975 o segmento teve uma queda, mas foi a partir de 1990, com o Plano Collor, que o ‘baque’ foi grande, pois os empresários, que sempre mandavam construir embarcações, suspenderam os pedidos, que nunca mais voltaram a ser os mesmos, aí surgiram os estaleiros de embarcações de ferro criando um clima de terror a respeito das embarcações de madeira”, falou.

Em 2002, Antonio Maria se formou em Tecnologia em Construção Naval e chegou a dar palestras em universidades, em São Paulo.

“Tinham alunos que não acreditavam que aqui na Amazônia navegavam embarcações de madeira”, riu.

Em 2006, de acordo com o empreendedor, foi quando os estaleiros de Novo Airão começaram a fechar, um a um.

“As madeiras certificadas tornaram a construção de uma embarcação cerca de 30% mais cara. Isso afastou os compradores, mesmo o BNDES financiando a compra”, destacou.

Atualmente Novo Airão tem apenas quatro pequenos estaleiros, sendo um, o São José, pertencente a Antonio Maria.

“Essa vazante ainda atrapalhou bastante. Nesse período estou apenas restaurando três barcos. Espero que os negócios voltem a ser como antes porque, com toda a certeza, as embarcações de madeira nunca vão acabar e sempre serão um ótimo investimento”, concluiu.

Fonte: JCAM

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