Isso nos permite deduzir que a facada, a rigor, não resulta da ignorância, muito menos de indisfarçável má-fé. A faca da arrecadação tributária, porém, é a mais provável explicação. Ela está sempre amolada, querendo se expandir sem se importar onde vai cortar. Muito menos o que precisa devolver ao contribuinte por sua compulsão de tanto arrecadar… O buraco do país é sua máquina pesada e ineficiente que só prioriza sua sobrevivência sem saber dizer pra quê…

Nelson Azevedo
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Em entrevista a um jornal paulista, o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia foi grosseiramente enfático: “Temos que passar a faca no Sistema S, tem que tirar dinheiro deles para passar para o jovem carente, para ele ter uma chance na sua vida de ter um emprego, de se qualificar e conseguir ter uma vida decente para o futuro”. Adolfo Sachsida ofende, principalmente, os jovens brasileiros que há 80 anos têm encontrado oportunidades no Senai, SESI e demais instituições do Sistema S, espalhadas pelo país inteiro. São milhões de depoimentos de inserção no mercado de trabalho com relatos eloquentes. E mais do que isso. São testemunhos de quem passou a praticar o pleno exercício da cidadania. Jovens de origem humilde, de famílias despossuídas, que viram seus filhos tornarem-se cidadãos de primeira linha pela qualidade e pela relevância das oportunidades oferecidas pelo Sistema S. Pense antes de atacar, secretário!

A compulsão tributária

O Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), no caso da Indústria, têm um portfólio robusto de contribuição para formar trabalhadores de classe mundial. As Olimpíadas de Conhecimento organizadas por instituições de respeitável nível acadêmico reforçam este nível dessa contribuição. “Meter a faca” nessa memória de acertos demonstra inaceitável desconhecimento de como as instituições têm atuado na formação e consolidação da Indústria no país e das generosas arrecadações à máquina sequiosa.

A saída é outra

A fala do presidente da CNI, Robson Andrade, resume a gravidade da manifestação. “Querer desestruturar o trabalho já realizado pelo SESI e pelo SENAI por meio de uma ‘facada’, na tentativa de enfraquecer duas das principais instituições com capacidade para contribuir com os esforços de reduzir a informalidade e o desemprego no país, isso sim, é condenar uma parcela da população à pobreza”. Não é por aí a senha da saída para o Brasil.

Amazônia 4.0

Robótica, cibernética, inovação tecnológica, internet das coisas… são algumas das recentes contribuições que lançaram as bases da Indústria 4.0, a quarta revolução industrial no Brasil através do Sistema S. O SENAI é a principal instituição de ensino técnico e profissional do país. Sua bagagem de acertos alcança a marca de 80 milhões de trabalhadores formados desde os anos 40 do século passado. Desconhecer a relevância desta contribuição significa ignorar que a indústria brasileira foi fortalecida e respeitada mundialmente por uma razão óbvia: há oito décadas de atuação com a metodologia de trabalho SENAI, seu projeto pedagógico e seu conteúdo técnico historicamente ajustado à evolução fabril de nosso país. Quem endossa esta avaliação é a UNESCO e a OIT, organismos da ONU focados na Educação e no Trabalho.

As perspectivas da bioeconomia

No Polo Industrial de Manaus, terceira planta fabril do país, fazer os cursos técnicos do SENAI é passaporte para atuar em grandes empresas, receber bons salários, no mesmo nível e, em muitos casos, acima da média das outras plantas industriais. Essa metodologia de trabalho é replicada em mais de 20 países e é premiada com muita frequência por organismos internacionais rigorosos. Em Manaus, o projeto do ISI, Instituto Senai de Inovação, por sua inserção no coração da floresta amazônica, se estrutura nas demandas da Bioeconomia, uma de nossas vocações para a Amazônia 4.0. E se mais não avançamos, é porque o Amazonas foi transformado em exportador líquido de recursos. Somos um estado pobre, ironicamente colocado entre os cinco maiores contribuintes da Receita Federal do país.

Em tempo de pandemia

O SESI, para ficar apenas num exemplo, diversificou seu perfil de qualidade em educação básica, com a adoção do EAD, virtual e criativo durante a pandemia. Em 2020, um ano difícil, açoitado pelas mazelas da COVID-19, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) do SESI beneficiou 36,7 mil trabalhadores já fora da idade escolar, permitindo a conclusão dos estudos e maior possibilidade de inserção no mercado de trabalho e crescimento profissional.

Leia “Fala de Sachsida mostra “desconhecimento” sobre Sistema S, diz CNI” clicando aqui
Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, disse que irá “passar a faca” no Sistema S e recursos irão para jovens carentes – Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

A faca amolada do secretário

Meter a faca nessa história viva, secretário? É algo surreal ou um desatino de propósitos escondidos. O que significa fazer de conta que não sabe que o Sistema S integra, desde a primeira hora, três programas do ME de inserção de jovens no mercado de trabalho: Emprega Mais, o Brasil Mais e o Aprendizagem 4.0. Isso nos permite deduzir que a facada, a rigor, não resulta da ignorância, muito menos de indisfarçável má-fé. A faca da arrecadação tributária, porém, é a mais provável explicação. Ela está sempre amolada, querendo se expandir sem se importar onde vai cortar. Muito menos o que precisa devolver ao contribuinte por sua compulsão de tanto arrecadar… O buraco do país é sua máquina pesada e ineficiente que só prioriza sua sobrevivência sem saber dizer pra quê….

Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM.

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