A indústria de bicicletas do PIM esboçou reação em fevereiro, mas acabou amargando novo recuo de produção. O Polo Industrial de Manaus entregou 39.860 bicicletas unidades e até conseguiu avançar 3,2% em relação a janeiro (38.636), mesmo com quatro dias úteis a menos. Mas, a comparação com o mesmo mês do ano passado (63.712), que foi um período marcado pelos impactos da terceira onda de covid-19 no Estado, confirmou um mergulho de 37,4%. Os dados são da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares).

O desempenho no bimestre não foi melhor. De janeiro a fevereiro, foram fabricadas 78.496 bicicletas no parque industrial de Manaus, 37,3% a menos do que o registrado nos dois meses iniciais de 2022 (125.149). Diante da nova performance negativa, a entidade empresarial mantém a estimativa de chegar ao final de 2023 com apenas 570.000 bicicletas fabricadas, o que representaria uma retração de 4,8% ante 2022 (599.044). Em contraste com os indicadores de produção e vendas internas, as exportações de bicicletas cresceram em quase todas as comparações, no mês passado.

O polo de bicicletas da indústria incentivada de Manaus conta atualmente com quatro fabricantes – Caloi, Sense Bike, Oggi Bikes e Houston Bike –, que respondem por 40% da oferta do segmento em todo o país. Depois de começar 2022 com projeções de crescimento de dois dígitos (+17,4%), o segmento começou a derrapar desde abril do ano passado, e já emplacou dez meses seguidos de retração. Como resultado, acabou fechando o ano em campo negativo, enquanto o polo de motocicletas colecionava novo recorde de produção.

Na análise da Abraciclo, um dos motivos para a performance negativa é a resiliência na crise de abastecimento de insumos. Diferente das motocicletas, metade dos componentes das bicicletas são importados. O outro seria o deslocamento da demanda do mercado doméstico para produtos de maior valor agregado, em detrimento de “modelos de entrada”. Vale lembrar, contudo, que algumas linhas de produção de bicicletas – notadamente as de modelos sem marchas – ficaram de fora da lista de produtos da ZFM salvaguardados da perda de competitividade proporcionada pelos decretos de redução do IPI.

Categorias e exportações

O mercado brasileiro continuou apostando nas Moutain Bikes, em fevereiro. Em números absolutos, essa foi a categoria que liderou o ranking de produção, com 25.005 unidades e 62,7% da oferta. A produção acelerou 17,4% ante janeiro, mas despencou 35,2% diante de fevereiro de 2022. Na sequência estão a Urbana/Lazer (8.216 e 20,6%), e a Infanto-Juvenil (3.728 e 9,4%) e a Estrada (2.260 e 5,7%). A minoritária Elétrica (1,6% do total) teve desempenho inverso, ao crescer 6,4% na variação anual e tombar 30,1% no mês.

O Sudeste foi a região que recebeu o maior volume de bicicletas fabricadas no PIM. Foram enviadas 30.147 unidades para lá, no mês passado, o que corresponde a 75,6% do total fabricado. As posições seguintes foram ocupadas pelo Sul (3.452 e 8,7%), Nordeste (2.895 e 7,3%), Centro-Oeste (2.316 e 5,8%) e Norte (1.050 e 2,6%). No comparativo dos dois meses iniciais deste ano, as duas primeiras posições foram mantidas, mas o Norte sobe para a terceira colocação, sendo sucedido por Nordeste e Centro-Oeste.

Apesar da produção menor, as exportações tiveram desempenho positivo. Em fevereiro, foram embarcadas 2.222 bicicletas “made in ZFM” para o mercado estrangeiro, o que configurou alta de 56,5% na comparação com janeiro (1.420) e um volume 14,2% superior ao do mesmo mês de 2022 (1.945). Conforme o levantamento do portal Comex Stat, os principais destinos foram Bolívia (1.238 unidades e 55,7%) e Paraguai (983 e 44,2%). No bimestre (3.642), entretanto, as vendas externas ainda estão negativas em 10,5%, e os mercados preferenciais foram Paraguai (1.693 e 46,5%) e Bolívia (1.238 e 34%).

Ajustes e perspectivas

Em entrevista exclusiva concedida recentemente à reportagem do Jornal do Commercio, o diretor executivo da Abraciclo, Paulo Takeuchi, lembrou que a falta de insumos é uma realidade mundial, e reforçou que a alteração da curva da demanda doméstica forçou os fabricantes a reprogramar seu mix de produtos. “Isso exigiu que a indústria alterasse todo o planejamento, da cadeia logística às linhas de produção.É importante enfatizar que as mudanças não ocorrem de uma hora para outra. Tivemos ainda uma conjuntura econômica que derrubou o poder de compra da população e elevou os níveis dos estoques de modelos de entrada nas lojas e nos centros de distribuição”, explanou.

Em comunicados de imprensa recentes, por outro lado, o vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo, Cyro Gazola, salientou que a base de comparação dos anos anteriores foi fortalecida pela pandemia. De acordo com o executivo, o segmento teria atingido o seu auge em meio às medidas de isolamento e distanciamento social, quando a bicicleta se tornou “a grande parceira” para deslocamentos e “interação com a família”.

Por meio da assessoria de imprensa da Abraciclo, Paulo Takeuchi, salientou que os resultados atingidos pela indústria de bicicletas do PIM ficaram dentro do esperado, diante dos ajustes de produção projetados pelos fabricantes para este ano. “Conforme nossas estimativas, os próximos meses continuarão sendo de ajustes. Mas, a gente acredita que, ao longo do tempo, comece já a ter novas perspectivas de mercado e, com isso, poder rever novamente nossas metas de produção”, ponderou.

Verticalização e IPI

O presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Manaus, e vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo, lembra que, até a pandemia, o segmento vinha em “franca expansão”, em função da demanda por atividades físicas e meios de mobilidade urbana econômicos. “Daí, tivemos o aumento na inflação e o consumidor foi forçado a priorizar seu orçamento, deixando de adquirir modelos de menor valor. Restou apenas a manutenção de modelos de maior especificação para aqueles que mantiveram seu poder de compra”, frisou.

Azevedo avalia, contudo, que há boas perspectivas, a partir da maior verticalização de processos. “Recentemente, as indústrias de bicicletas sinalizaram a necessidade de atrair fornecedores de componentes para Manaus, visando o adensamento da cadeia produtiva e a redução da dependência de importações. Acreditamos que esse é o caminho. Temos indústrias estabelecidas com capacidade instalada disponível, mão-de-obra treinada e preços competitivos para suprir as indústrias locais”, afiançou.

Já o ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Junior, avalia que a crise do IPI foi fundamental para a queda de produção no polo de bicicletas. “Os decretos certamente fizeram o PIM perder mercado para os importados, nos modelos de entrada. Isso, somado aos juros altos, fez as empresas analisarem seus custos de oportunidade e revisarem seus planejamentos estratégicos para competir nos segmentos de maior valor agregado, por meio de ganhos de escala. Essa é uma situação que penaliza o Polo e pode ficar pior, dependendo da evolução da crise aberta pelas falências dos bancos nos EUA”, arrematou.

Fonte: JCAM

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