Diante de um novo tombo na produção, e das incertezas no varejo, o polo de bicicletas do PIM reduziu sua meta de produção para 2023. A projeção agora é chegar a dezembro com apenas 510.000 bicicletas fabricadas, uma retração de 14,9% diante de 2022 (599.044). Até então, a estimativa era fechar o ano com 570.000 unidades e um decréscimo limitado a um dígito (-4,8%). Os números foram anunciados pela Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), em entrevista coletiva virtual, veiculada em seu canal no YouTube.

Em junho, o Polo Industrial de Manaus entregou 41.687 bicicletas, 6,8% a menos do que em maio (44.713). As linhas de produção também amargaram queda de 13,5%, em relação a igual mês do ano passado (48.210). O desempenho foi ainda pior no acumulado do ano, a despeito da base de comparação ter sido comprometida pela terceira onda de Covid-19. No semestre, a queda foi de 22,3%, com 260.765 (2023) contra 335.744 (2022) unidades. Em sintonia com o aperto na produção e no varejo, as exportações também declinaram.

Desde o ano passado, o polo de bicicletas do PIM passa por uma crise e, ao contrário do ocorrido na indústria de motocicletas de Manaus, vem sofrendo quedas de vendas e produção, assim como cortes nas metas de produção. Outro diferencial é que, pelo menos até agora, o avanço da tramitação da reforma Tributária não trouxe entusiasmo aos quatro fabricantes instalados no PIM –Caloi, Sense Bike, Oggi Bikes e Houston Bike –, que respondem por 40% da oferta da indústria brasileira de bicicletas.

Durante a coletiva, o vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo, Cyro Gazola, salientou que o polo de bicicletas segue no esforço para atender o novo perfil do consumidor, que hoje prefere produtos de médio e alto valor agregado, no lugar de “modelos de entrada”. A mudança exigiu adequações no planejamento das cadeias logística e de produção. Em paralelo, o principal vilão a ser combatido para abrir mais espaço para a oferta não é mais a crise dos insumos, mas o acúmulo de estoques. Outro entrave vem do encarecimento do crédito, que limita o varejo, mesmo diante de descontos de até 25%.

“Nossos números estão ligados a uma realidade iniciada desde o segundo semestre de 2022, quando vimos uma redução da demanda, passado o período mais difícil da pandemia. Viramos o ano com uma média de estoques muito acima do planejado. Isso passa a refletir em uma cadeia que se planeja, no mínimo, 12 meses para a frente, em uma nova realidade de produção”, resumiu. “O que a gente pode esperar para o segundo semestre vai depender da realidade do varejo”, emendou.

Inventário e caixa

O dirigente conta que, em paralelo com os ajustes de estoques e replanejamento industrial, todas as fabricantes de bicicletas atuaram, no primeiro semestre, em “uma parceria muito forte” com seus canais de venda e clientes em planos de sell-out por todo o Brasil. “A prioridade da indústria e do varejo tem sido a proteção do caixa e a redução dos inventários. Estamos com uma realidade de mercado de muitas promoções, o que é muito bom para o consumidor, embora tenha deteriorado a base de rentabilidade do subsetor”, pontuou.

De acordo com Gazola, a crise dos insumos já ficou para a história, sendo suplantada pelo estrangulamento do crédito, o que produz impactos negativos não apenas na demanda, mas também na sustentação das empresas. “O suprimento de peças e componentes, que já foi um vilão lá atrás, durante o período mais agudo da pandemia, se normalizou. Cada vez mais nós vemos uma realidade em que esse problema ficou para trás. O que está havendo agora é um aperto dos bancos na concessão de crédito e gestão de risco”, apontou.

Ao falar de expectativas, o executivo assinalou que o segmento busca “proteger o faturamento integrado da indústria e do varejo” e que a aproximação do Dia das Crianças, Black Friday, Natal e férias de verão ainda gera dúvidas. “Nossa indústria depende muito do crédito, independentemente do canal de venda. E há muita incerteza no varejo sobre o que vai ser essa sazonalidade do segundo semestre. Estamos trabalhando para entender se vamos ter oportunidade de melhorar a base do ano passado”, lamentou.

O vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo garantiu, contudo, que o segmento mantém os planos de investimentos e inovações até 2024, “com fortalecimento das linhas de produção e ajustes industriais”. Mas, acrescenta que as fabricantes aguardam notícias melhores para programar os anos posteriores. “Estamos todos olhando para 2024, como um ano de oportunidade de voltar a retomar esse fluxo de crescimento. No curto e médio prazo, vai ser importantíssimo termos essa gradual redução da taxa de juros. Porque isso afeta diretamente a própria capacidade de venda”, frisou

Categorias e exportações

A boa notícia é que, em razão de trabalhar com uma fatia maior de produtos mais sofisticados e caros, a redução da escala de produção não produziu queda de faturamento. Dados da Abraciclo informam que a receita projetada na cadeia de bicicletas para este ano soma R$ 1,01 bilhão em vendas, 11,48% a mais do que o contabilizado em 2022 (R$ 906 milhões) –embora a quantia ainda tenha ficado menor do que o registro de 2021 (R$ 1,17 bilhão). “Estamos conseguindo uma gradual retomada, mesmo com um ambiente muito promocionado”, frisou Gazola.

Segundo a Abraciclo, o mercado brasileiro continua apostando nas bicicletas tipo Mountain Bike. A categoria lidera o ranking de produção de junho, com 66,5% (27.720) da oferta, com altas mensal (+6,5%) e anual (+1,4%) de vendas. Foi seguida pela Urbana/Lazer (15,8% e 6.599), que sofreu tombos de dois dígitos (-46,1% e -53%). Na sequência estão a Infanto-Juvenil (13,2% e 5.516), a Estrada (2,6% e 1.070) e a Elétrica (1,9% e 782). As respectivas posições foram mantidas no semestre. “O segmento das bicicletas elétricas é pequeno, mas com tendência de crescimento grande. É o que mais avança, não em produção, mas em vendas”, pontuou.

O Sudeste foi a região que recebeu o maior volume de bicicletas fabricadas no PIM, respondendo por 57,2% (149.228) da demanda dos primeiros seis meses do ano. Foi também a região que apresentou o maior índice de diminuição de vendas, com recuo de 1,8%. Ocupando a segunda colocação, o Sul (18,8% e 49.033) diminuiu suas compras em 0,9%. A lista se completa com Nordeste (10,8% e 28.237), Centro-Oeste (7,6% e 19.758) e Norte (5,6% e 14.509), que contabilizaram altas na mesma comparação (+1,4%, +0,7% e +0,6%, na ordem). Não foram registradas mudanças no ranking mensal.

Em sintonia com a produção menor, as exportações de bicicletas “made in ZFM” despencaram 31,6% na comparação de junho (1.818) com o mesmo mês de 2022 (2.658) – embora tenham disparado 145,7% frente ao volume atipicamente baixo apresentado em maio de 2023 (740). Conforme o levantamento do portal Comex Stat, os principais destinos foram Paraguai (1.694 unidades e 93,2% do total) e Portugal (ambos com 124 e 6,8%). Em seis meses (6.504), a retração nas vendas para o estrangeiro foi de 38,8%. Os mercados preferenciais foram Paraguai (3.387 e 52,1%), Bolívia (1.468 e 22,6%) e Uruguai (794 e 12,2%).

Por Marco Dassori

Fonte: JCAM

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