Em: 22 de agosto de 2025
O papel do economista na Amazônia nunca foi tão desafiador e, ao mesmo tempo, tão necessário. Em meio a transformações globais, como a reforma tributária, os impactos das mudanças climáticas e a urgência de construir modelos de desenvolvimento sustentável, o Conselho Regional de Economia do Amazonas e Roraima (Corecon-AM/RR) assume uma posição estratégica de reflexão e ação.
À frente da entidade, a economista Michele Aracaty conduz um debate que vai além das pautas técnicas: trata-se de colocar a Amazônia no centro da formulação de políticas públicas, com protagonismo regional e voz ativa em fóruns nacionais e internacionais. Nesse contexto, o Encontro de Entidades de Economistas da Amazônia Legal (Enam 2025), realizado em Manaus às vésperas da COP30, surge como vitrine e espaço de articulação. Mas o nosso bate-papo com Aracaty não se limita ao evento — ela percorre temas estruturais da economia amazônica, como bioeconomia, integração regional, tecnologia e a valorização do profissional de economia.
Michele Aracaty detalha como os economistas podem contribuir para transformar o discurso em prática, enfrentar crises recorrentes da região e, sobretudo, ajudar a construir uma nova narrativa para a Amazônia: a de solução global e não de problema a ser administrado.
Jornal do Commercio – A reforma tributária tornou-se um dos grandes embates nacionais que mostrou o protagonismo dos economistas diante da pauta que ainda gera muitas dúvidas sobre os impactos regionais, como no caso da Zona Franca de Manaus. Como a senhora avalia o papel dos economistas nesse tipo de discussão que tem se tornado cada vez mais frequente?
Michele Aracaty – A reforma tributária trouxe à tona novos desafios para todos pois mudou um regime confuso que necessitava de mudanças há pelo menos 30 anos. Os economistas e demais profissionais se debruçaram sobre a pauta de forma a garantir o protagonismo no nosso principal modelo de desenvolvimento regional, mas como ocorre em todo processo de mudança ainda temos muitas dúvidas e decisões a serem pautadas.
Os economistas serão os protagonistas no sentido de apontarem caminhos para a mitigação dos impactos da reforma tributária sobre a perda da arrecadação e elevação da renda disponível, por exemplo, sendo imprescindível a necessidade de políticas públicas para gerar emprego e renda nos municípios de forma a impulsionar o consumo, lembrando que a partir de 2033 a arrecadação passará a ser do destino e não na origem.
JC – O tema central do Encontro de Entidades de Economistas da Amazônia Legal (Enam 2025) relaciona a economia amazônica às mudanças climáticas e à COP 30. De que forma os economistas podem influenciar para que o debate ambiental se traduza em políticas públicas e instrumentos econômicos efetivos para a região?
Michele Aracaty – Os economistas podem contribuir na construção e direcionamento de políticas públicas e instrumentos econômicos para valorização dos ativos da floresta garantindo que os recursos que venham a apartir do financiamento climático possam beneficiar quem realmente precisa e cuida da floresta, ou seja, precisamos pautar a nova economia da floresta agora mais sustentável e verde.
JC – O evento resultará na elaboração de uma carta oficial entregue ao comitê da COP30. Quais pontos centrais a senhora considera que não podem faltar nesse documento para garantir que a voz da Amazônia seja ouvida nas negociações internacionais?
Michele Aracaty – A carta apresentará diretrizes a serem implementadas na Amazônia tendo os “amazônidas” como protagonistas da verdadeira economia da floresta. Precisamos gerar emprego e renda verdes levando oportunidades de forma que os habitantes da amazônia possam ser compensados pela conservação da floresta em pé.
Entre os pontos relevantes, posso destacar: Amazônia como solução e não como problema;necessidade de um modelo de desenvolvimento regional endógeno; investimentos em infraestrutura e logística; mais investimento em educação e oportunidades ao capital humano; sinergia entre os conhecimentos tradicionais e científicos; fortalecimento de parcerias institucionais, Estados e países; uso da tecnologia e IA para proteger a Amazônia e a biodiversidade; geração de empregos e renda verdes e política de redução da pobreza, fome e vulnerabilidade; investimento em agricultura regenerativa para recuperar áreas degradadas fazendo uso dos agricultores familiares; clareza e direcionamento do mercado de crédito de carbono e pagamentos por serviços ambientais e empreendedorismo feminino e regional.
JC – Em momentos de crise, como secas severas, enchentes ou instabilidade econômica nacional, qual deve ser o protagonismo do economista na formulação de diagnósticos e soluções que minimizem o impacto social e econômico no Amazonas?
Michele Aracaty – O economista da Amazônia é o verdadeiro conhecedor da região e poderá liderar a junção entre o conhecimento científico e tradicional para direcionar as políticas públicas que devem ser endógenas levando-se em consideração as potencialidades regionais. O economista regional pode propor ações de mitigação e prevenção para redução do custo provenientes das mudanças climáticas sobre a economia regional.
JC – A bioeconomia é frequentemente citada como caminho estratégico para o desenvolvimento da Amazônia. Mas como transformar esse discurso em prática econômica viável, que gere emprego, renda e inclusão sem repetir velhos modelos de exploração predatória?
Michele Aracaty – O ponto central é superar os gargalos de infraestrutura e logísticos, melhorar a qualificação do capital humano, a conectividade, as oportunidades e destravar o ambiente de negócios, ou seja, precisamos do Estado para que possamos seguir com a proposta da bioeconomia como pilar central da economia verde.
JC – O Corecon-AM/RR vem de uma trajetória de fortalecimento da profissão no Estado. Quais os principais desafios que a senhora enxerga hoje para a valorização do economista na região, considerando a velocidade das mudanças tecnológicas e a pressão por resultados imediatos?
Michele Aracaty – Os economistas de uma forma geral precisam se aproximar mais das tecnologias e da inteligência artificial usando a sua habilidade de analisar dados e tomar decisões assertivas a partir do uso destas ferramentas.
JC – O Enam reúne entidades dos nove Estados da Amazônia Legal. Como a integração entre os Corecons pode fortalecer a formulação de propostas conjuntas, e de que maneira isso pode influenciar a formulação de políticas públicas em nível federal?
Michele Aracaty – Os conselhos de economia podem juntos apresentar propostas para reduzir as vulnerabilidades sociais e econômicas regionais de forma a fazer diagnósticos e apresentar direcionamento quanto à aplicação dos investimentos e externalidades destes sobre a economia e o desenvolvimento regional. Ademais, desempenha papel relevante no que tange ao impulsionamento do crescimento econômico e a melhoria da qualidade de vida nas áreas menos desenvolvidas.
Fred Novaes
Fonte: JCAM



