Estudo propõe criação de centros físico-digitais para impulsionar sociobioeconomia e agregar valor à produção na região
Atualizado em 11/10/2025 às 09:32
A transição para a sociobioeconomia, por meio da criação de hubs de inovação, tem potencial para gerar R$ 83 bilhões até 2035 na Amazônia, segundo um estudo coordenado pelo Instituto Amazônia 4.0, além da criação de 620 mil empregos verdes diretos. O Polo Industrial de Manaus (PIM), que tem seus incentivos marcados para findar em 2073, também pode se beneficiar dessa mudança.
A sociobioeconomia se entende pelo aproveitamento sustentável da sociobiodiversidade amazônica. Os hubs de inovação propostos, segundo o estudo encomendado pela organização EY, devem focar em cadeias produtivas prioritárias de produtos como açaí, castanha-da-Amazônia, cacau, óleos vegetais e bioativos.
O professor e pesquisador Carlos Nobre, membro honorário do conselho técnico-científico do instituto, destacou que os incentivos fiscais dados à indústria atualmente giram em torno de R$ 40 bilhões, incluindo para o PIM, mas que eles não são destinados a produtos da sociobiodiversidade, apesar de algumas empresas localizadas em Manaus já terem dado início a essas mudanças.
“A transição ainda está muito lenta, e o que você falou é um desafio, sim. A transição tem que acelerar muito e é até muito importante que, quando for fazendo a transição, nós todos vamos continuar apoiando Manaus, mas o recurso, em vez de ir para essas indústrias de não-produtos da sociobiodiversidade, vá para essa transição”, disse.
O especialista em gestão estratégica Agliberto Chagas apontou como um problema a centralização dos investimentos na cidade de Manaus, não estendendo, pelo menos hoje, para o restante do estado.
“O grande gargalo que existe na Zona Franca de Manaus e o instrumento de renúncia fiscal é que, das 600 empresas que tem no polo, 60% são elegíveis para compor o fundo de desenvolvimento de P&D dessa lei, e o que acontece com esse fundo? Tem que colocar 5% em projetos de P&D. Desses, 3% mais ou menos podem ser no próprio projeto, para desafio tecnológico interno, e outros 2% eles fazem para todo o resto”, disse.
Proposta
O estudo da EY propõe a criação de hubs fluviais que exigirão um investimento médio de R$ 19 milhões, com retorno estimado em 60 meses, com integração de barcos-indústria movidos a energia solar, rotas fluviais otimizadas, entrepostos com biofábricas e sistemas de refrigeração.
Com essa estrutura, são esperados redução de até 40% nos custos logísticos, diminuição de 25% das perdas pós-colheita e descarbonização de 1,8 milhão toneladas de dióxido de carbono por ano com modais sustentáveis. Os impactos, além dos empregos e do valor agregado à cadeia, preveem também aumento da renda média das famílias extrativistas (pode subir de R$ 1.200 para R$ 3.500 mensais – quase o triplo) e inclusão socioprodutiva de povos originários e comunidades ribeirinhas.
O sócio líder de sustentabilidade da EY, Ricardo Assumpção, afirmou que a organização vê na bioeconomia “um dos pilares para o desenvolvimento sustentável da Amazônia” e que a pesquisa mostra maneiras de “apoiar iniciativas que conectam inovação, inclusão produtiva e valorização da sociobiodiversidade”.
O estudo indicou gargalos estruturais nos estados do Amazonas, Pará e Amapá, como a baixa agregação de valor aos produtos naturais, escassez de infraestrutura de pesquisa e desenvolvimento, concentração das atividades de inovação nas capitais e ausência de governança integrada entre governo, academia e setor produtivo.
No Amazonas, a economia é fortemente concentrada em Manaus, impulsionada pela Zona Franca de Manaus (ZFM). A produção científica atende majoritariamente demandas corporativas, com baixa interiorização das oportunidades. Iniciativas como o Parque Tecnológico de Manaus e a Aceleradora de Negócios da Bioeconomia, no Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), buscam reverter esse cenário.
Em 2024, o CBA finalizou o ano com a aprovação de R$ 36 milhões em projetos aprovados junto a órgãos de fomento, empresas e parceiros públicos voltados ao desenvolvimento da bioeconomia na Amazônia. O diretor-geral Márcio Miranda ressaltou que o volume de recursos reflete o novo modelo de gestão do centro, que se voltou para a promoção de bionegócios.
“A mudança na forma como nos posicionamos e articulamos parcerias tem sido determinante para os avanços que alcançamos. Estamos deixando de ser apenas um polo de pesquisa para nos tornarmos um catalisador de oportunidades sustentáveis, valorizando a biodiversidade amazônica e promovendo inovação”, disse, à época.
Fonte: Acritica



