Uma decisão de investimento tomada hoje pode levar anos para se transformar em uma fábrica em funcionamento. Nesse intervalo, o empresário assume obrigações, mobiliza fornecedores, contrata serviços e prepara trabalhadores. A confiança necessária para percorrer esse caminho depende da continuidade das condições que sustentaram a decisão inicial. No Amazonas, onde a distância dos mercados e as dificuldades de infraestrutura pesam sobre a atividade econômica, essa previsibilidade tem importância vital.

É com essa compreensão que devemos ler as cartas dirigidas a Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Nantes Bolsonaro. Os sete compromissos apresentados pelas entidades tratam das condições de que o estado precisa para preservar sua base produtiva, ampliar investimentos e distribuir melhor as oportunidades. Seu alcance acompanha a relação entre a indústria, o comércio, os serviços, a agropecuária e a renda das famílias.

FIEAM, CIEAM, Fecomércio AM, FAEA, FCDL Amazonas, CDL Manaus, Associação Comercial do Amazonas e OAB Amazonas reúnem, nessa iniciativa, diferentes representações e responsabilidades institucionais. A apresentação de conteúdo idêntico aos dois candidatos reconhece a pluralidade política dos participantes e demonstra capacidade de construir uma posição comum em torno do desenvolvimento regional.

Essa convergência precisa sobreviver à eleição. A força das cartas dependerá também da disposição de seus signatários para sustentar, durante o mandato, a mesma articulação que tornou possível apresentá-las.

A segurança precisa chegar à atividade econômica

A continuidade da Zona Franca no horizonte constitucional de 2073 exige atenção permanente às condições de sua competitividade. Para uma empresa que planeja modernizar equipamentos ou ampliar a produção, importam o funcionamento dos mecanismos tributários, a previsibilidade administrativa e o tempo necessário para analisar seus projetos.

Por isso, a implementação das garantias da reforma tributária e o fortalecimento da Suframa ocupam posição central nessa agenda. Uma dificuldade na utilização de créditos, uma exigência contraditória ou a demora de uma decisão podem comprometer capital de giro e alterar o planejamento de toda uma cadeia produtiva.

A melhor maneira de preservar essas garantias é acompanhar seus efeitos concretos. As entidades precisam manter capacidade técnica para identificar problemas, documentar seus impactos e apresentar soluções antes que dificuldades administrativas provoquem perdas de investimento e emprego. Esse trabalho exige interlocução regular com o governo e articulação com a representação parlamentar.

O desenvolvimento precisa alcançar os municípios

A carta também reconhece que o futuro do Amazonas depende de ampliar as oportunidades no interior. Essa tarefa envolve continuidade de obras e convênios, infraestrutura, energia, conectividade e condições para que atividades agrícolas e florestais encontrem financiamento, conhecimento e mercado.

A aproximação entre indústria, universidades, institutos de pesquisa e pequenos negócios pode contribuir para esse avanço. Precisamos transformar essa aproximação em projetos viáveis, com responsabilidades definidas e aplicação do conhecimento às necessidades da população.

Há espaço para ampliar fornecedores, desenvolver produtos da biodiversidade e apoiar empreendimentos que gerem renda com a floresta em pé. O resultado dependerá da qualidade dos projetos e da capacidade de enfrentar os obstáculos que hoje limitam sua execução.

O mesmo cuidado se aplica à BR-319, aos portos e às hidrovias. Planejamento, exigências ambientais e conhecimento das condições climáticas e hidrológicas devem orientar intervenções capazes de atender à população e à produção. Na Amazônia, perder um período adequado de execução pode significar mais um ano de espera e de custos elevados.

Como dar consequência aos compromissos

O pedido de um plano de encaminhamento nos primeiros cem dias de governo oferece uma referência importante. Esse prazo deve permitir conhecer os interlocutores, as providências previstas e os caminhos administrativos e orçamentários de cada prioridade. A execução terá ritmos diferentes, conforme a complexidade das medidas.

Para acompanhar esse processo, proponho que as entidades organizem uma instância conjunta de trabalho, com apoio técnico e participação de representantes dos setores envolvidos. Uma pauta compartilhada pode registrar as respostas dos candidatos, os encaminhamentos do governo eleito, os responsáveis por cada medida e os obstáculos encontrados.

Relatórios periódicos, objetivos e públicos ajudariam a verificar o andamento da agenda. Em vez de depender apenas de reuniões ocasionais, teríamos uma rotina de acompanhamento, com informações que permitissem cobrar providências e contribuir para corrigir dificuldades.

Também seria importante ouvir os municípios, os trabalhadores, as instituições de ensino e os empreendedores do interior. Essa participação ajudaria a avaliar se os resultados estão alcançando as pessoas e os territórios que justificam o esforço.

A unidade institucional ganha consistência quando consegue acompanhar, propor e cobrar com informação. Ela permite reconhecer avanços e enfrentar atrasos com a mesma responsabilidade, preservando o diálogo com o governo escolhido pela população.

Um trabalho que continua depois das urnas

Ao apresentar essa agenda, as entidades assumem sua própria parcela de responsabilidade. Oferecer informações, elaborar propostas, colaborar com projetos e acompanhar resultados são compromissos que exigirão dedicação ao longo dos próximos anos.

O respeito ao resultado eleitoral e a continuidade do diálogo institucional dão sustentação a esse trabalho. As preferências políticas de cada participante permanecem legítimas, enquanto a defesa do emprego, da segurança dos investimentos e do desenvolvimento do Amazonas exige cooperação duradoura.

As cartas oferecem uma base para essa atuação. Cabe agora buscar respostas claras dos candidatos e preparar, desde já, o acompanhamento do próximo governo. O propósito estará sendo cumprido quando as condições defendidas nos documentos puderem ser percebidas por quem investe, por quem trabalha e por quem ainda espera uma oportunidade em seu município.


Leia as cartas na íntegra

Com conteúdo idêntico, os documentos apresentam aos dois candidatos os sete compromissos propostos pelas entidades e incluem o anexo referencial sobre o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Nelson Azevedo

Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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