Operação brasileira do grupo Seiko Epson vê crescimento de modelos mecânicos e solares e afirma que consumidor tem migrado para produtos de maior valor agregado
Por Vitória Nascimento — Valor Econômico
14/06/2026
Os relógios mecânicos e outras linhas de maior valor agregado passaram a impulsionar o crescimento da Orient Brasil. Após registrar faturamento bruto de R$ 136,1 milhões no primeiro trimestre de 2026 e lucro líquido 93,7% superior ao registrado um ano antes, a operação brasileira do grupo japonês Seiko Epson projeta alcançar R$ 700 milhões em faturamento bruto até o fim do ano.
A empresa, de capital fechado e com números auditados pela BDO RCS, atua há 53 anos no Brasil e é responsável pela operação nacional do grupo Seiko Epson, um dos maiores conglomerados globais do setor de relojoaria. O portfólio reúne 14 marcas, entre elas Orient, Seiko e Grand Seiko, além da fabricação de produtos de marcas próprias para grandes varejistas brasileiros. Os relógios dessas marcas têm preços que começam em torno de R$ 1 mil e podem ultrapassar R$ 40 mil nas linhas mais sofisticadas.
Mudança no perfil do consumidor
Segundo Rodrigo Anzanello, diretor de produtos da companhia, o avanço da margem está relacionado a uma mudança estratégica no mix de produtos. Os modelos mecânicos com preços acima de R$ 2 mil foram os que apresentaram maior crescimento no período.
“O consumidor não busca mais um relógio como acessório de moda. Ele busca uma forma de expressar o seu estilo de vida”, afirma o executivo.
Para Anzanello, o mercado brasileiro ainda está cerca de dez anos atrasado em relação à Europa, Ásia e Estados Unidos, onde o consumidor já passou pela transição dos smartwatches para os relógios mecânicos, enxergando esses produtos também como ativos de valor.
A estratégia da Orient acompanha uma tendência global: relógios mecânicos representam uma parcela menor do volume de unidades vendidas, mas concentram uma fatia relevante do valor financeiro do mercado.
Tecnologia solar e durabilidade
Para fortalecer o posicionamento dos modelos tradicionais frente aos relógios conectados, a companhia vem ampliando o portfólio de produtos com maior autonomia energética.
Nos modelos automáticos, a energia é gerada pelo movimento do pulso, que alimenta o mecanismo interno. Já nos modelos a quartzo, a empresa utiliza a tecnologia Soltech, desenvolvida pelo grupo Seiko Epson, que permite recarregar baterias de íon de lítio utilizando qualquer fonte luminosa. A tecnologia pode garantir funcionamento por até seis meses sem exposição à luz e preservar cerca de 70% da capacidade após esse período.
A linha inclui ainda modelos com calendário perpétuo e o calibre Astron, capaz de sincronizar informações com 11 satélites, alcançando precisão equivalente à de um relógio atômico.
Estratégia diante dos smartwatches
Embora também atue no segmento de relógios conectados, a Orient afirma que essa categoria representa uma parcela pequena do faturamento total.
A empresa destaca que, entre os fabricantes de relógios da Zona Franca de Manaus, é uma das maiores vendedoras em volume de unidades nessa categoria, com modelos a partir de R$ 299.
Para Anzanello, a diferença está na durabilidade: enquanto relógios mecânicos podem atravessar gerações, os conectados possuem um ciclo de atualização tecnológica mais curto.
Produção em Manaus
A fabricação dos relógios ocorre em Manaus, em uma operação que reúne mais de 600 funcionários nos períodos de maior atividade.
A fábrica trabalha atualmente com o modelo SKD (Semi-Knocked Down), no qual os mecanismos chegam do Japão já montados e são integrados localmente a componentes como caixa, mostrador e pulseira.
Segundo a empresa, a unidade também possui capacidade técnica para operar no sistema CKD (Completely Knocked Down), que prevê a montagem completa dos relógios a partir de componentes desmontados, incluindo o próprio calibre.
Impactos cambiais e desafios logísticos
Como parte dos componentes é importada do Japão, oscilações no câmbio e nos preços internacionais de metais e energia afetam diretamente os custos de produção.
Para reduzir riscos, a empresa mantém estoques equivalentes a aproximadamente cinco ou seis meses de operação. O prazo entre o pedido dos componentes no Japão e a chegada dos produtos ao mercado brasileiro pode chegar a 120 dias.
No segundo semestre, a companhia monitora fatores como feriados prolongados, que podem reduzir o fluxo de consumidores no varejo, e o impacto da Copa do Mundo, que pode tanto diminuir o movimento nas lojas físicas quanto estimular a compra de presentes.
Outro ponto de atenção são as eleições, devido ao possível aumento da volatilidade cambial. “Historicamente, eleições causam volatilidade no dólar. Isso pode afetar nossa rentabilidade e o preço final ao consumidor”, afirma Anzanello.
Fonte: Valor Econômico



