Segundo a Eletros, a produção caiu cerca de 15% no primeiro trimestre na comparação anual. Ainda assim, o setor aposta em recuperação ao longo de 2026.

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 28/04/2026 às 08:28 | Atualizado em: 28/04/2026 às 08:28

A queda inédita na confiança do setor de ar-condicionado no Brasil, apontada pela Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava), acendeu um sinal de alerta no mercado no primeiro trimestre de 2026. Mas, na Zona Franca de Manaus (ZFM), segundo maior polo mundial de produção de aparelhos, atrás apenas da China, o diagnóstico da indústria é mais cauteloso do que alarmista.

De acordo com reportagem do Valor Econômico, o índice de confiança (IC Abrava) caiu para 47,7 pontos, entrando pela primeira vez na zona de pessimismo desde o início da série histórica. O principal fator seria o encarecimento de insumos, impulsionado pela alta do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio.

Resinas plásticas, fluidos refrigerantes e custos logísticos puxaram uma elevação de 16,7% nos insumos no período. Ao mesmo tempo, a demanda não acompanhou: o faturamento avançou apenas 1,2% na comparação anual, enquanto novos pedidos recuaram 1,4%.

Na ZFM, os dados de produção também refletem a desaceleração. Segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), citada no levantamento, a fabricação de aparelhos “split” caiu 25,7% nos dois primeiros meses do ano.

“Mais percepção do que realidade”

Apesar do cenário, a leitura da indústria instalada no Amazonas é menos pessimista. Para o presidente da Eletros, Jorge Nascimento, o indicador da Abrava precisa ser interpretado com cautela.

“O índice mede muito mais percepção do que resultado real. Ele capta o humor do empresário, influenciado por juros, inflação, câmbio e cenário internacional”, afirmou.

Nascimento destaca que a Abrava representa uma cadeia mais ampla, enquanto a Eletros reúne os fabricantes — elo diretamente ligado à produção e vendas. “Não é uma fotografia de consumo. Não mede diretamente venda nem produção”, reforçou.

Queda no curto prazo, recuperação no radar

A indústria admite que houve retração no início do ano. Segundo a Eletros, a produção caiu cerca de 15% no primeiro trimestre na comparação anual. Ainda assim, o setor aposta em recuperação ao longo de 2026.

“O que a gente vê é um empresário mais cauteloso agora, por causa do ambiente macroeconômico. Mas os fundamentos do setor são positivos”, disse Nascimento.

Entre esses fundamentos, o executivo destaca um fator decisivo para o mercado de climatização: o clima. A previsão de temperaturas mais elevadas ao longo do ano tende a impulsionar a demanda por aparelhos, especialmente no segundo semestre.

Estoques altos e economia pressionada

O relatório da Abrava também aponta estoques acima do nível ideal — sinal de que o mercado ainda absorve lentamente a produção. No campo macroeconômico, o ambiente segue desafiador: a projeção de inflação medida pelo IPCA subiu para 4,36%, enquanto o crescimento do PIB é estimado em 1,85%.

Mesmo assim, as expectativas futuras do setor permanecem levemente positivas, com índice de 52,6 pontos e projeção de crescimento de faturamento de 9,35% em 2026.

Entre o “humor” e os fundamentos

Para a indústria da Zona Franca, o momento exige leitura equilibrada. A confiança em baixa reflete um ambiente global mais turbulento, mas não necessariamente uma deterioração estrutural do setor.

Na prática, o que se desenha é um primeiro semestre mais contido, seguido de possível retomada puxada por fatores sazonais — e, sobretudo, pelo calor.

Em um mercado onde temperatura e consumo caminham juntos, o termômetro do clima pode pesar mais do que o termômetro da confiança.

Fonte: BNC Amazonas

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