O Ano Novo desponta com oportunidades para o Brasil e o Amazonas, diante das promessas de ganhos de produtividade decorrentes da adoção crescente da IA (Inteligência Artificial), a despeito do cenário geopolítico turbulento. Ano eleitoral, 2026 também continua apresentando desafios, em um cenário de entraves estruturais e políticos que inibem o potencial de crescimento. A avaliação é do economista e empresário, Jaime Benchimol. Sua análise foi concedida em palestra realizada na sede da Associação PanAmazônia, na noite desta quinta (29). Como já é tradição, o evento de inauguração da agenda anual da entidade sem fins lucrativos contou com casa cheia.
No fronte externo, Benchimol ressalta uma conjuntura de crescimento econômico mundial “resiliente”, com estimativas de altas 3,3%, em 2026, e de 3,3%, em 2027, conforme dados do FMI. Uma primeira constatação, que ajuda a amparar as projeções, é que os ‘tarifaços’ norte-americanos, e a resposta das demais economias mundiais a eles, não produziram a debacle econômica esperada por muitos analistas. “As tarifas comerciais dos EUA saltaram de uma média de 3% em janeiro de 2025, para 18% em dezembro do ano passado. Mas, as economias se mostraram muito resilientes a essas mudanças”.
A avaliação sobre os preços do petróleo e gás natural é que estes devem se manter estáveis nos níveis atuais, em uma conjuntura em que a redução de consumo para veículos seja compensada pelo aumento de demanda para geração de energia elétrica para data centers. A inflação mundial, por outro lado, deve cair de 4,1% para 3,8%, na comparação de 2025 com 2026, para chegar a 3,4% no proximo ano, abrindo algum espaço para a redução dos juros. Em compensação, tensões comerciais e riscos geopolíticos “quase imprevisíveis” – na Ucrânia, Taiwan, Groenlândia e Oriente Médio, por exemplo – podem surgir e apresentar incertezas e rupturas.
Inteligência Artificial
Para o economista, a guerra comercial foi mais que compensada por investimentos em tecnologia, principalmente em Inteligência Artificial, e oriundos da América do Norte e na Ásia. O empresário ressalta que a atividade econômica pode ser elevada com uma adoção mais rápida, principalmente se esta se transformar em ganhos de produtividade e estimular o dinamismo nos negócios. A estimativa é que a Inteligência Artificial pode elevar o crescimento mundial em 0,5% a 1% ao ano, no curto prazo, e até alcançar taxas maiores, no médio prazo. “Notar, porém, que a depreciação dos investimentos em tecnologia deve se acelerar com a rápida obsolescência dos ativos tecnológicos, provocada pela IA”, ressalvou.
O empresário salienta a curva de investimentos “sem precedentes” na IA, superando o recorde registrado pelas locomotivas a vapor no século 19, que representavam o ápice tecnológico da época. A perspectiva é que a nova tecnologia deve levar o mundo a uma taxa de crescimento de 7% já em 2030, a partir de novas tendências em sua aplicação. Uma delas é o uso como “motor central” e peça fundamental que catalisa outras plataformas. “Os custos de inferência caíram mais de 99% em um ano, impulsionando a procura por computação. O investimento em sistemas de centros de dados pode triplicar para US$ 1,4 trilhões até 2030”, apontou.
Outras aplicações listadas incluem as Inteligências Artificiais como agentes na transformação de experiências de compras, reservas de viagens, cadeias de suprimento; no uso físico e robótica adaptativa para aumentar a produtividade no trabalho; na saúde e longevidade na era da biotecnologia de “IA nativa”; na economia de viagens espaciais (principalmente envio de satélites); e utilização na energia e armazenagem. “A expansão de baterias estacionárias, a revitalização da energia nuclear modular, e operações espaciais devem responder à procura massiva de energia gerada pelos centros de dados de IA”, completou.
Liberalismo e crescimento
O empresário lembra que 2026 marca os 250 anos de publicação do livro “A Riqueza das Nações”, de autoria do filósofo Adam Smith (1723-1790), e que norteia o pensamento econômico liberal. Benchimol dá um exemplo dessas ideias sendo postas e prática, ao destacar que o PIB dos países pode ser medido justamente pela maior ou menor regulação dos governos em suas economias. “O EUA devem avançar 2,4% em 2026, e vem mantendo taxas de 2% já alguns anos. Ao contrário, é a Europa, que deve crescer 1,3% neste ano, e há 15 anos vem seguindo com taxas de aproximadamente 1%. Esse é um belo exemplo de como um país onde há mais liberdade econômica consegue crescer de forma mais acelerada”, comparou.
Outro exemplo listado é o da Argentina, no qual o governo do presidente Javier Milei eliminou controle de preços; reduziu despesas e subsídios; e reduziu o tamanho do Estado na economia. “Essas reformas são muito difíceis porque são muito dolorosas para a sociedade, mas já produzem resultados. A inflação caiu de 211%, em 2023, para 30%. O PIB cresce a 4% e a taxa de pobreza foi reduzida em 21 pontos percentuais, em 2025. O orçamento foi controlado e foi iniciada a flutuação do peso argentino”, asseverou, acrescentando que o resultado favorável do partido do presidente nas eleições de outubro de 2025 confirma a aprovação dessas políticas.
“Pouso suave”
No fronte nacional, Benchimol ressalta que o Brasil passa por um período de tentativa de “pouso suave” na economia, reduzindo a velocidade dos preços sem impor retrocessos ao PIB. No cenário traçado pelo Banco do Brasil, por exemplo, o país deve crescer 1,7% neste ano, com a região Norte crescendo 2,4%. “O Brasil tinha uma inflação de 10%, logo depois pandemia de covid-19, em 2021, e chegou a 4,5%, no ano passado, sem provocar uma recessão, por exemplo. É possível evitar uma crise fiscal em 2027 em diante, mas a probabilidade que ela aconteça é grande”, alertou.
O PIB per capta se mantém estagnado no mesmo nível dos últimos 30 anos, encostando nos US$ 10.000 (por efeito do câmbio, inflação e juros). O economista ressalta que redução na taxa desemprego surpreendeu, embora ressalve que isso decorre não apenas de crescimento econômico, mas também dos impactos do Bolsa Família na fila do desemprego, em um contexto de gastos públicos crescentes.
“A dívida pública está em 78% do PIB e deve crescer. Se quisermos manter esse indicador estável, precisamos de um superávit de 3%. Além disso, a produtividade total do Brasil tem sido muito baixa e o investimento, em torno de 17% do PIB. Na China e na Índia, a taxa é de 50%. Também não ajudou o fato de termos desperdiçado o nosso período de bônus demográfico, que se encerrou em 2024”, encerrou, acrescentando que o caminho passa por medidas que abram mais espaço para a liberdade das empresas, e menos “políticas populistas”.
Lílian Araújo



