Relatório de outubro mostra rio Madeira abaixo do nível de referência para restringir navegação; rotas abastecem comunidades e carregam produção para exportação

André Borges

brasília As principais hidrovias da Amazônia e do Pantanal entraram em situação de alerta para o transporte de cargas e passageiros, devido à seca que atinge a região.

Relatório do Ministério de Portos e Aeroportos, ao qual a Folha teve acesso, mostra que o rio Madeira fechou o mês de setembro abaixo do nível de referência para impor restrições à navegação. No rio Tapajós, a profundidade está próxima de 3 metros, enquanto há persistência de seca extrema na bacia do Paraguai.

A previsão de menos chuva em parte da Amazônia nos próximos meses aumenta a preocupação com essas rotas, que são intensamente usadas para abastecer cidades e comunidades ribeirinhas, além de vias para exportar grãos e minério.

O relatório foi elaborado pela área de planejamento sustentável da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação. O documento, que reúne dados de órgãos de monitoramento e previsões climáticas, retrata a situação em 30 de setembro, com referências consultadas até 5 de outubro.

A situação de alerta ainda não equivale a uma declaração formal de emergência ou suspensão da navegação. No Madeira, a estação de Porto Velho (RO) marcou 3,07 metros em 30 de setembro, após uma queda de 1,37 metro durante o mês. A marca de 4 metros é usada como referência para “início da restrição” e a de 2 metros como “parada de navegação”.

O Madeira liga Porto Velho (RO) ao rio Amazonas, atravessando também o estado do Amazonas. É uma saída para a produção agrícola da região Centro-Oeste e uma rota de abastecimento. A hi-drovia transportou 12,1 milhões de toneladas de soja e milho em 2025.0 ministério aponta ainda seu papel no envio de combustíveis e produtos essenciais aos municípios ribeirinhos.

Apesar das limitações, o Madeira continua bem acima da marca de 49 centímetros que chegou a ser registrada em Porto Velho em 30 de setembro de 2024. A previsão específica para a região aponta níveis próximos da mediana histórica, com início da subida das águas ainda em outubro. Isso significa uma perspectiva de recuperação.

No Tapajós, no Pará, o relatório aponta profundidades de 3,15 metros em Itapaiúna e 2,99 metros em Monte Cristo, dois pontos considerados críticos para a navegação.

Na régua de Itaituba, o nível era de 2,40 metros em 30 de setembro, após queda de 1,91 metro durante o mês. Em Santarém, estava em 2,63 metros, com redução de 2,10 metros. Para as duas estações, estão previstos níveis abaixo da mediana histórica.

Hoje a hidrovia do Tapajós é uma das que mais recebe produção do Centro-Oeste, por meio de terminais de Miritituba, no município de Itaituba. Os grãos chegam de caminhão pela BR-163, sobretudo de Mato Grosso, e seguem em barcaças para portos de exportação.

Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, o Tapajós transportou 2,38 milhões de toneladas no primeiro bimestre de 2026. Soja e milho representaram 86% da movimentação. A rota também transporta fertilizantes e gra-néis líquidos.

O risco de dificuldades nesse corredor movimenta cobranças do setor produtivo.

Em agosto, entidades reunidas numa mobilização liderada pela Frente Parlamentar da Agropecuária estimaram que a falta de dragagem do rio poderia provocar impacto de até R$ 850 milhões na cadeia produtiva. A preocupação é que restrições à navegação obriguem parte das cargas a migrar para caminhões, com aumento dos custos.

O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) cancelou em setembro uma licitação de R$ 74,8 milhões para a dragagem do Tapajós, após avaliação técnica e diálogo com povos indígenas e comunidades tradicionais contrárias às ações no rio.

No Rio Negro, a estação de Manaus (AM) registrou 18,80 metros em 30 de setembro. O rio caiu 5,21 metros durante o mês e estava 1,72 metro abaixo da mediana histórica. Ainda assim, a leitura era superior aos 13,14 metros registrados no mesmo dia de 2024.

O Negro e o Solimòes, que formam o rio Amazonas, fazem parte da via de deslocamento de passageiros e pequenas cargas.

A preocupação é de que os bancos de areia possam restringir a passagem em trechos dos dois rios, inclusive na região entre Manaus e Coari.

No Solimões, que liga a fronteira oeste do Amazonas à região de Manaus, o retrato está mais favorável. Tabatinga registrava 3,47 metros e Coari, 6,70 metros, ambas acima da mediana histórica da data. Em Tabatinga, o rio subiu 41 centímetros na última semana de setembro.

No Pantanal, o principal ponto de preocupação é o rio Paraguai. Três regiões importantes do rio estavam na faixa inferior de normalidade para a época. Em 30 de setembro, Cáceres, em Mato Grosso, registrava 77 centímetros, diante de uma mediana histórica de 1,42 metro. Em Mato Grosso do Sul, Ladário estava em 1,18 metro, ante 2,55 metros, e Porto Murtinho em 2,38 metros, ante 4,48 metros.

A hidrovia do Paraguai, que atravessa o Pantanal, se conecta à rede fluvial que leva cargas a portos da Argentina e do Uruguai. Na seca de 2024, a movimentação caiu para 3,3 milhões, uma redução de cerca de 58% sobre o ano anterior.

Para o trimestre de outubro a dezembro, o relatório aponta expectativa de menos chuva em parte da Amazônia e piora de oferta de água ao longo dos meses nas bacias do Madeira, Negro e Tapajós.

O risco exige acompanhamento, mas ainda não permite afirmar que todas as hidrovias terão paralisações.

O Ministério de Portos e Aeroportos declarou, via Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação, que mantém contratos de dragagem de manutenção nos rios Madeira, Amazonas, Solimões e Paraguai para melhorar a navegabilidade e garantir a continuidade do transporte de passageiros, cargas e insumos.

“Como se trata de dragagem de manutenção, não há aprofundamento do leito, mas apenas desassoreamento de alguns trechos que podem afetar a navegação. Desta forma, há segurança e autorização para navegação até que se atinja o nível mínimo, quando, então, avalia-se a necessidade de alívio de carga ou de interrupção das operações de transporte”, afirmou, em nota.

Sobre os rios Amazonas e Solimões, a pasta disse que há oito contratos de obras e supervisão que somam R$ 459,48 milhões. As intervenções integram o Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária.

No Madeira, disse a pasta, o contrato de dragagem de manutenção contínua prevê R$ 123,26 milhões para obras entre Porto Velho e a foz do rio Amazonas, incluindo a travessia da BR-230. Está no primeiro de três anos de execução, com conclusão prevista até novembro de 2029.

No caso do rio Paraguai, a conservação contempla dragagem, manutenção e adequação da sinalização, com R$ 69,6 milhões para obras e R$ 15,42 milhões para supervisão.

A situação só é outra no rio Tapajós, uma vez que a contratação da dragagem foi suspensa.

12,1

milhões

Foi 0 número de toneladas de soja e milho transportadas pelo Rio Madeira em 2025.

A rota, que liga Porto Velho (RO) ao rio Amazonas, é uma saída para a produção agrícola do Centro-Oeste e para 0 abastecimento dos municípios locais

R$850

milhões

É o impacto negativo que a falta de dragagem do Rio Tapajós poderia provocar na cadeia produtiva, segundo estimativa de entidades do setor agrícola. As restrições à navegação devem obrigar parte das cargas a migrar para caminhões, gerando aumento dos custos

3 regiões

Do Rio Paraguai apresentam nível abaixo do comum: Cáceres (MT), Ladário (MS) e Porto Murtinho (MS)

Fonte: Folha de S. Paulo

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