Em: 6 de maio de 2026
Receita estadual cresce puxada pela indústria, mas comércio e serviços ainda preocupam economistas.

A arrecadação estadual do Amazonas recuperou o fôlego em março, após dois meses de retração. A soma de impostos, taxas e contribuições encostou em R$ 2,25 bilhão em valores correntes, ficando 52,03% acima do dado de fevereiro (R$ 1,48 bilhão) – que teve três dias úteis a menos. Puxada pela indústria e serviços, e apenas três de seus oito principais tributos, a receita tributária amazonense escalou 29,08% diante de março de 2025 (R$ 1,74 bilhão), já descontada a inflação oficial. O trimestre (R$ 5,33 bilhões) subiu 2,34%, em números reais. Os dados são da Sefaz, que usou o IPCA anula do mês (+0,88%) em seu cálculo, levando em conta também dívida ativa, multa e juros.

O ICMS que é majoritário no bolo da Secretaria de Estado da Fazenda, decolou 41,95% na comparação de março (R$ 2,02 bilhões) com o mesmo mês do exercício anterior. A lista de tributos em alta nesse tipo de comparação, no entanto, incluiu apenas as taxas administradas pela Sefaz (+26,09% e R$ 30.08 milhões) e a contribuição do PIM para o FMPES/ Fundo de Apoio às Micro e Pequenas Empresas e ao Desenvolvimento Social (+19,73% e R$ 20.99 milhões). O mesmo se deu no trimestre (+5,36%, +39,65% e +19,38%, respectivamente), com R$ 4,67 bilhões, R$ 67,32 milhões e R$ 58,80 milhões arrecadados.

Segundo maior volume recolhido, o IPVA, tombou 36,63% (R$ 68,22 milhões). Os dados negativos se disseminaram também pelo ITCMD/Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (-83,96% e R$ 2,20 milhões), pelas receitas estaduais do IRRF/Imposto de Renda Retido na Fonte (-27,10% e R$ 121,01 milhões) e pelas contribuições para FTI/Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviço e Interiorização do Desenvolvimento do Estado do Amazonas (-14,93% e R$ 180,30 milhões) e UEA (-13,85% e R$ 75,04 milhões). Os cinco também declinaram no acumulado dos três meses iniciais de 2026 (-34,75%, -47,71%, -5,10%, -17,93% e -11,63%, na ordem).

 

“Luz amarela”

Em março, o principal indutor do maior recolhimento de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços foi a indústria (+84,62% e R$ 1,35 bilhão), que respondeu por 54% do total. O mês foi positivo para a rubrica de “indústria incentivada” (+8,72% e R$ 144,32 milhões), em detrimento do desempenho das receitas majoritárias com “insumos importados” (-24,27% e R$ 259,75 milhões). No acumulado do ano, o setor foi o único a permanecer de pé e conseguir incremento de receitas, com desempenho 16,35% superior ao de igual período do ano passado e R$ 2,52 bilhões recolhidos.

Os serviços (+6,22% e R$ 111,58 milhões) vieram a uma certa distância, sendo responsáveis por 7% da arrecadação de ICMS. Foram favorecidos pelos subsetores de energia elétrica (+10,62% e R$ 58,62 milhões) e comunicação (+4,23% e R$ 24,52 milhões), mas não pelos combustíveis (-39% e R$ 110,34 milhões) – que também compõem a receita de comércio e indústria. Já a arrecadação do comércio caiu 4,84% (R$ 558,64 milhões) e reduziu sua participação para 39%. Sua principal rubrica, “notificação de mercadoria nacional” encolheu 9,69% (R$ 177,29 milhões). De janeiro a março, serviços (-0,02% e R$ 341,93 milhões) e comércio (-6,08% e R$ 1,81 bilhão) se mantêm no vermelho.

Na análise da ex-presidente do Corecon-AM e professora do departamento de Economia da Ufam, Michele Lins Aracaty e Silva, os números da Sefaz mostram sinais de enfraquecimento e instabilidade da atividade econômica estadual. “A arrecadação mostra sinais contraditórios. No curto prazo, há um aumento nominal expressivo, mas surgem riscos estruturais de retração em prazos mais longos. Apesar de a inflação provocar ganho rápido e artificial, o cenário de guerra aliado às altas taxas de juros freia o crescimento real da economia. Essa desaceleração, com o tempo, deteriora a base que sustenta a cobrança de impostos”, frisou.

A economista enfatiza que, a despeito da resiliência da indústria, o desempenho mais fraco de comércio e serviços confirmam que o consumo começa a enfrentar restrições, acendendo uma luz amarela para os próximos meses. “Há ainda a preocupação com uma possível vazante extrema. Nesse cenário, os agentes econômicos enfrentam uma série de desafios que vão desde o aumento expressivo dos custos operacionais até o agravamento do isolamento social e geográfico. Os efeitos desse fenômeno são amplos e sistêmicos, afetando as empresas e o consumo das famílias”, destacou.

 

Guerra, juros, vazante

A consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, avalia que o crescimento da arrecadação industrial registrado no mês passado já era esperado. “É incrível como ainda tem gente que critica a indústria da Zona Franca de Manaus, mesmo diante da evidência de que ela é o principal indutor da arrecadação do governo do Amazonas. A alta do recolhimento é natural, em virtude da produção e do faturamento do Polo para a demanda do Dia das Mães, que já está próximo”, avaliou.

Indagada sobre suas estimativas, a economista ressaltou que os impactos da escalada do conflito no Oriente Médio na inflação e nos juros dificultam as projeções. “Estamos em um processo inflacionário decorrente da guerra no Oriente Médio, que aumentou o preço dos combustíveis no mundo. O custo logístico, que já é caro na ZFM, subiu ainda mais, e isso onera insumos e produto acabado, embora gere uma arrecadação um pouco superior. Mas, estamos na expectativa da resolução do Copom sobre a taxa Selic e não estou muito esperançosa por uma redução, por conta desse panorama de guerra”, ponderou.

O consultor empresarial e professor universitário, Leonardo Marcelo Braule Pinto, também considera que a arrecadação deu salto significativo, embora considere preocupante o desempenho do comércio e do IPVA, que também reflete as vendas de parte do setor. “O que levanta a arrecadação ainda é a indústria, confirmando que o Estado quase que de forma exclusiva do PIM, que teve desempenho louvável. Entretanto, é um sinal de alerta para que a gente trabalhe outros setores, como a bioeconomia e as atividades bioprospectivas de uma forma geral, para criar outro braço de desenvolvimento”, sugeriu.

O economista considera que outras variáveis tendem a impactar a arrecadação nos próximos meses, como a expectativa de uma nova vazante severa. “É muito provável um comportamento atípico dos agentes econômicos, entre maio e julho. Para evitar desabastecimento e frete aéreo, a indústria deve acelerar a produção e isso pode gerar um falso positivo, com números inflados. Se a estiagem se confirmar, teremos uma queda de braço logística, por volta de agosto e setembro, e o custo do frete pode drenar a margem das empresas e reduzir as vendas de forma brusca. Se o preço dos produtos finais subir, dificilmente o comércio vai ter fôlego para recuperação. Aí, devemos observar uma manutenção da arrecadação apenas em setores essenciais”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio

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