O investimento anunciado pela Novamed merece ser observado para além de seu valor financeiro. A empresa do Grupo EMS destinará mais de R$ 300 milhões à expansão de sua fábrica no Polo Industrial de Manaus e à implantação de um novo Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. A capacidade da unidade deverá alcançar até 2,5 bilhões de comprimidos por mês. Desse aporte, R$ 27,5 milhões serão financiados pelo BNDES, em projeto que inclui planta-piloto, ampliação do laboratório analítico, reforma de instalações e aquisição de equipamentos.

Demorou cinquenta anos 

A Novamed iniciou suas atividades em Manaus em 2014, como a primeira indústria de medicamentos instalada na Zona Franca. Doze anos depois, sua expansão mostra que o modelo pode abrigar empreendimentos intensivos em conhecimento, capital e tecnologia com aderência à biodiversidade amazônica. E vamos considerar um conjunto de dados relevante. Uma fábrica farmacêutica não chega sozinha. Ela mobiliza profissionais qualificados, controle sanitário, engenharia, automação, logística especializada, laboratórios, fornecedores e uma rede de serviços técnicos.

Laboratório, planta e escala

O novo centro de PD&I amplia esse significado. A pesquisa realizada junto à fábrica reduz a distância entre o laboratório, a planta-piloto e a produção em escala. É nessa aproximação que o conhecimento científico começa a adquirir valor econômico, gerar propriedade intelectual, substituir importações e criar produtos capazes de alcançar mercados maiores.

O aporte também nos coloca diante de uma pergunta inevitável

Quantas outras Novamed o Amazonas poderia atrair se transformasse suas vantagens industriais e biológicas em uma estratégia permanente de investimento? A resposta exige uma política que não se limite à prospecção de fábricas já estruturadas em outras regiões. O Amazonas precisa apresentar ao investidor uma plataforma completa, formada por segurança jurídica, incentivos, infraestrutura industrial, financiamento, recursos humanos, pesquisa aplicada, acesso regularizado à biodiversidade e possibilidade real de produção em escala.

Diversificação e adensamento 

Temos condições de avançar em quatro cadeias particularmente promissoras: cosméticos, alimentos integrais e funcionais, suplementos e biodefensivos agrícolas. São mercados nos quais a biodiversidade amazônica pode fornecer óleos, extratos, fibras, proteínas, compostos naturais, microrganismos e princípios ativos. Seu aproveitamento econômico, entretanto, depende de pesquisa, padronização, rastreabilidade, escala, regularidade de fornecimento, certificação e acesso ao mercado.

Um percurso longo e promissor 

Entre a descoberta de uma propriedade biológica e a chegada de um produto à prateleira existe um percurso longo. É preciso identificar o ativo, comprovar sua segurança e eficácia, desenvolver processos de extração ou síntese, realizar testes, proteger a propriedade intelectual, obter registros regulatórios e organizar uma cadeia capaz de fornecer matéria-prima com qualidade constante. Uma pequena comunidade, uma startup ou um laboratório universitário dificilmente percorre sozinho todas essas etapas.

Aí se encontra a responsabilidade do poder público 

Governo do Estado, Suframa e União precisam coordenar um movimento que reúna empresas, universidades, institutos de pesquisa, agências de financiamento, organizações comunitárias e compradores. O Amazonas dispõe de instituições como o Centro de Bionegócios da Amazônia, Inpa, Embrapa, Ufam, UEA, Ifam e institutos de ciência e tecnologia associados ao Polo. Dispõe também dos mecanismos de PD&I da Zona Franca, da Fapeam e das linhas nacionais operadas pelo BNDES e pela Finep. Há recursos, competências e experiências acumuladas. Falta dar a esse conjunto uma direção econômica compartilhada.

Recursos estão disponíveis 

O próprio desenho dos programas do BNDES e da Finep oferece uma referência. A chamada destinada à implantação e à expansão de centros de PD&I considera a cooperação com universidades e institutos de pesquisa, o adensamento das cadeias produtivas, a incorporação de atividades industriais de maior complexidade e a comercialização das tecnologias desenvolvidas. São critérios perfeitamente compatíveis com uma estratégia amazônica de bioindustrialização.

A expansão da Novamed remete à mobilização

 A empresa possui experiência industrial, laboratórios, capacidade regulatória e acesso ao mercado farmacêutico. Isso não significa atribuir ao investimento anunciado uma conexão com bioativos que ainda precisa ser construída. Significa reconhecer que Manaus passa a contar com uma infraestrutura científica e produtiva capaz de participar de futuras parcerias, inclusive com empresas e instituições interessadas em moléculas, ingredientes e processos derivados da biodiversidade.

Novamed inaugura expans o da f brica e centro de PD I com investimento de R 300 milh es. Capacidade produtiva deve crescer quase 50 7

O CBA aguarda há décadas

O Centro de Bionegócios da Amazônia pode funcionar como uma das pontes entre esses mundos. Seu portfólio reúne projetos aptos a receber investimentos de PD&I, indicando que parte da base científica já existe. O desafio consiste em selecionar tecnologias com viabilidade, aproximá-las das necessidades das empresas e conduzi-las até a produção comercial.

Um caminho concreto para a interiorização

As fábricas de maior escala continuarão concentradas em Manaus por razões de infraestrutura, logística e acesso a profissionais especializados. O valor pode alcançar o interior por meio das cadeias de fornecimento. Cultivo, manejo, coleta, beneficiamento primário, viveiros, biofábricas, bancos de germoplasma, unidades de secagem e extração, rastreabilidade e serviços ambientais podem ser organizados nos municípios onde os recursos biológicos se encontram.

Premissas para vincular chão de fábrica à floresta 

Para que essa interiorização produza resultados duradouros, cada cadeia deve nascer com contratos, padrões técnicos, assistência aos produtores, repartição de benefícios e compromisso de compra. Extrair matéria-prima sem transferir conhecimento ou renda apenas reproduziria antigas relações econômicas. A bioindústria ganha consistência quando a floresta em pé passa a sustentar atividades contínuas, formalizadas e tecnologicamente assistidas.

Organizar um programa de atração de investimentos

O propósito é adensar o polo de bioindústria com metas objetivas para os próximos anos. Caberia mapear bioativos e competências científicas; selecionar projetos próximos da escala industrial; formar consórcios entre empresas e centros de pesquisa; estruturar financiamento; preparar fornecedores no interior; acelerar certificações e apresentar essas oportunidades a grupos nacionais e internacionais dos setores farmacêutico, cosmético, alimentício e agrícola.

A governança precisa acompanhar os resultados

Quantos projetos chegaram à planta-piloto? Quantas patentes foram licenciadas? Quanto as empresas investiram? Quantos fornecedores do interior foram contratados? Que parcela do valor permaneceu nas comunidades e nos municípios? Quantos produtos alcançaram o mercado? Sem esses indicadores, a bioeconomia corre o risco de permanecer como promessa repetida em seminários.

Os R$ 300 milhões da Novamed 

São cifras confirmando que a Zona Franca segue capaz de atrair capital produtivo e tecnologia. Também mostram que a diversificação pode acontecer dentro da estrutura industrial já existente, aproveitando suas competências, seus incentivos e sua inserção no mercado nacional.

Cabe agora ampliar essa experiência

O futuro econômico do Amazonas passa por uma Zona Franca mais diversificada, com cadeias produtivas mais densas e relações mais profundas com o interior. A indústria oferece escala. A ciência oferece conhecimento. A biodiversidade oferece possibilidades ainda pouco exploradas. A coordenação pública precisa aproximar essas três forças do mercado e transformar bons ativos em negócios, empregos, renda e desenvolvimento regional.

A Novamed escancara uma porta importante. Nossa tarefa é construir o corredor que permita a passagem de muitos outros investimentos.

Nelson Azevedo

Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM

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