Isadora Camargo e Rafael Vazquez — De São Paulo
A bioeconomia brasileira entrou em uma nova fase pós-COP30 e se prepara para dar um salto em termos de execução neste ano, segundo especialistas do setor. Os próximos cinco anos serão decisivos para o Brasil consolidar sua liderança em biodiversidade e desenvolvimento econômico sustentável, na avaliação da economista Talita Pinto, diretora-executiva do Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV).
“Vemos um movimento concreto para que a bioeconomia saia do palco teórico para o campo prático, que beneficie negócios, abertura de novos mercados e se torne modelo para diversos territórios. São negócios escaláveis e que atraem financiamento.”
Até poucos anos atrás, a bioeconomia era vista como um conceito ambiental promissor, mas de difícil mensuração, acrescenta a pesquisadora. A partir de agora, ganha “instrumentalização” e maior impulso por meio de políticas públicas, ativos financeiros e construção de métricas que comprovem suas vantagens econômicas.
Na COP30, em Belém, o tema protagonizou uma série de lançamentos de políticas públicas. O Brasil apresentou a plataforma global Bioeconomy Challenge com o objetivo de transformar princípios em iniciativas concretas. Além disso, o governo federal lançou o programa Coopera+ Amazônia com R$ 107 milhões em recursos via BNDES e Fundo Amazônia, que serão direcionados a cooperativas de produtores locais, e o governo estadual do Amazonas criou um plano de bioeconomia para reforçar a produção sustentável com foco em apoiar povos tradicionais e valorizar a floresta em pé.
O conjunto de ações busca fazer com que, até 2030, a forma como o Brasil estrutura seu desenvolvimento sustentável ganhe escala e vire referência em modelo de negócio verde para outros países, com regras claras sobre estruturação de cadeias produtivas, de financiamento e de governança, prevê a economista da FGV.
De 2010 até 2023, apesar dos avanços, a bioeconomia brasileira apresentava crescimento tímido, inferior a 1% ao ano, representando uma fatia que ficava entre 20% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, conforme dados do Observatório apurados em 2024.
Para calcular o valor da macrobioeconomia, pesquisadores utilizaram a mesma metodologia do IBGE, mas segmentando cadeias da bioeconomia primária, bioindústria, bioenergia e indústria com viés biológico. O resultado foi o PIB da Bioeconomia (PIB-Bio) de R$ 2,7 trilhões em 2023, o equivalente a 25,3% da atividade econômica nacional. Em 2010, esta fatia era de 20,2%.
Ainda sem números novos, a diretora-executiva garante um crescimento robusto, pois variáveis como renda das comunidades afetadas e sequestro de carbono estão sendo monitoradas e incluídas em um novo resultado, que deve ser lançado ao longo de 2026.
Daqui para frente, três exigências orientarão a agenda brasileira de bioeconomia: a capacidade de escalar cadeias produtivas com integridade socioambiental; a mobilização de capital com governança e métricas auditáveis; e a entrega de resultados verificáveis em áreas como segurança alimentar, abastecimento e redução de vulnerabilidades sociais.
O que Pinto classifica como uma institucionalização da bioeconomia coincide com um processo considerado decisivo como política pública e como agenda do debate eleitoral em 2026, principalmente incluindo projetos de alavanca da bioeconomia na conta do plano orçamentário e das metas fiscais do país.
Uma das tendências mais relevantes do novo ciclo, segundo ela, é a convergência entre a bioeconomia e as políticas de segurança alimentar e abastecimento do país que, por meio de diretrizes como a Política Nacional de Abastecimento, pode assegurar compras públicas provenientes da sociobioeconomia, fortalecendo populações vulneráveis.
Com isso, a direção é um novo ciclo que contará com maior integração entre os setores público, privado e científico para acelerar tecnologia, produtividade e logística, dando fôlego à cadeia produtiva da biodiversidade.
O setor também tem ganhado robustez pelo cooperativismo, pontua a pesquisadora, porque as cooperativas reduzem custos de transação, agregam oferta, viabilizam rastreabilidade e oferecem governança coletiva a pequenos produtores.
Entre as projeções mais recentes está a previsão de que o setor pode adicionar entre US$ 100 bilhões e US$ 140 bilhões à economia brasileira, com alto valor agregado à inovação a partir de 2032, segundo estudo do ICC (International Chamber of Commerce) Brasil.
Em 2024, a organização NatureFinance já havia calculado que, globalmente, a bioeconomia já vale entre US$ 4 trilhões e US$ 5 trilhões e poderá chegar a US$ 30 trilhões até 2050. O Brasil, ao longo do período, deve se fortalecer como liderança global da atividade, principalmente pela biodiversidade que ultrapassa a Amazônia, destaca a análise.
“A bioeconomia sozinha não vai salvar a floresta ou se tornar o grande setor econômico do Brasil. Não é bala de prata, mas certamente é um componente adicional valioso na estratégia de geração e agregação de valor para a Amazônia e outros biomas como o Cerrado. Trata-se de valorizar um capital natural que o Brasil tem escoando os produtos da bioeconomia para o mercado”, diz o diretor de conservação da ONG The Nature Conservancy (TNC) no Brasil, Rodrigo Spuri.
Biomarcas
Por associar a biodiversidade de territórios muito diferentes entre si, Pinto aposta na exclusividade dos negócios que o Brasil poderá oferecer e que não se restringem à Amazônia. Marcas e gastronomia hiperlocal são só alguns exemplos. Nesse desenho, instrumentos como compras públicas — a exemplo do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) — funcionam como formadores de mercado, articulando inclusão produtiva, abastecimento e segurança alimentar, especialmente em áreas urbanas e periféricas.
Embora ainda não existam projeções consolidadas sobre geração de empregos no setor, Pinto afirma que o movimento de agregação de valor e desenvolvimento regional tende a ampliar renda, consumo e demanda por serviços, criando empregos. Além disso, o setor vai exigir cada vez mais investimentos em ciência, tecnologia e inovação adaptados às especificidades regionais, o que pode atrair profissionais qualificados para além do eixo Rio-São Paulo.
A economista destaca que a primeira grande transição da bioeconomia já aconteceu e, daqui para frente, o fluxo de capital vai sustentar o protagonismo brasileiro na área.
“Em um país que já possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo — com cerca de 30% de toda a energia gerada a partir da biomassa —, a bioeconomia se apresenta como um eixo estratégico capaz de combinar desenvolvimento econômico, redução de desigualdades e menor impacto ambiental”, exemplifica.
Dada a complexidade socioambiental brasileira, o avanço não é imediato. “O Brasil é um diamante bruto. O desafio é lapidar esse potencial de forma estruturada, mensurável e inclusiva”, reforça. E junto com o processo se acelera a tão mirada descarbonização.
Antes da compreensão de que a bioeconomia era uma forma de escalar pequenos negócios, o desenvolvimento não parecia possível.
Um exemplo da escalada de bionegócios é a Amaz Aceleradora de Impacto da Amazônia que, em 2025, completou cinco anos de atividade com 16 empresas ativas em seu portfólio, além de 29 em formação, 52 negócios apoiados e cerca de 500 startups de bioeconomia avaliadas.
“Temos visto dois grandes setores como vetores de inovação na bioeconomia amazônica, que são alimentos e cosméticos. No caso dos alimentos, despontam produtos com maior valor agregado, como os ‘superalimentos’, substitutos de refeições, baseados em cadeias como guaraná, cacau, castanha e mandioca. Nos cosméticos, vemos uma diversidade cada vez maior de competidores que já utilizam cadeias de valor, como a Natura. O desafio é penetrar mercado”, detalha Gabriela Souza, líder de operações na iniciativa de Novos Negócios do Idesam e gestora de operações da Amaz.
Ela reforça que há um movimento de empresas de lastrear os negócios com ativos ambientais, refletindo que a bioeconomia pode dialogar com cadeias industriais consolidadas. “Não é só sobre escalar produto, mas sobre estruturar cadeias, relações e serviços ao redor desses modelos.”
Para a especialista, a virada de chave para todas as cadeias está na aposta em pesquisa e desenvolvimento para ofertar, além da matéria-prima bruta e o produto final, serviços que as cadeias de bioprodutos podem oferecer, por exemplo, explorando biofábricas. A favor do movimento, acrescenta, está 2026 como ano que sucede a COP no Brasil, que deve aumentar o protagonismo da economia sustentável nacional.
Coordenada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam), a Amaz foi a única iniciativa brasileira a ficar entre os finalistas do GAEA (Giving to Amplify Earth Action) Awards 2026, prêmio internacional do Fórum Econômico Mundial que reconhece soluções inovadoras aos desafios climáticos.
Para 2026, a meta da Amaz é aumentar o fluxo de recursos direcionados à bioeconomia a partir de novos modelos de financiamento, como a incubação de negócios comunitários, de base científica e tecnológica e que desenvolvem produtos, serviços e empregos.
Hoje, a Amazônia detém o “poder” de atrair olhares internacionais, mas também é a região mais à frente da bioeconomia brasileira, reforça Souza. Só o Amazonas é o Estado mais conservado da região, com 93,22% de cobertura florestal, importante ativo para a bioeconomia, segundo o Atlas da Bioeconomia Inclusiva, publicado recentemente pela Embrapa.
Fonte: Valor Econômico



