Em: 27 de abril de 2026
Os sinais são cada vez mais fortes de que a estiagem de 2026 deve ser próxima aos níveis de 2023.O prognóstico para 2027 não é melhor. Diante disso, o comércio já se prepara para não ficar sem estoques nas festas de fim de ano. A estimativa da Defesa Civil do Amazonas é que, nos próximos 60 dias, a cota d’água do rio Madeira (em Porto Velho e Humaitá) deve se aproximar do registro de três anos atrás. Nas calhas do Amazonas (em Itacoatiara, Parintins e Manaus), a previsão é que os níveis fiquem até abaixo dessa marca. O alerta foi dado pelo titular da pasta, coronel Francisco Ferreira Máximo Filho, durante a 4ª reunião de diretoria da Fecomercio-AM, ocorrida nesta semana e acompanhada pela imprensa.
O encontro ocorreu uma semana após Sedecti e Defesa Civil terem reunido lideranças empresariais de todas as atividades econômicas do Amazonas para estreitar o diálogo entre as empresas e o Estado em torno de informações técnicas e alinhamento de estratégias para planejamento prévio eficiente no novo cenário hidrológico. Em função do porte financeiro mais acanhado das empresas de comércio e serviços, a ACA (Associação Comercial do Amazonas) encaminhou pedido de medidas tributárias emergenciais ao governo estadual, para permitir a formação de estoque preventivo para as festas de fim de ano, antecipando eventuais gargalos logísticos da seca.
Durante a reunião da Fecomercio-AM, o titular da Defesa Civil do Amazonas, destacou que 2025 marcou o maior registro de precipitações no Estado, nos últimos cem anos, em função do La Niña. Mas, o volume recorde de chuvas não foi suficiente para repor as perdas hidrológicas dos rios amazônicos, geradas pelas vazantes recordes de 2023 e 2024. Em meio a esse cenário, o secretário estadual destaca os efeitos do El Niño no aquecimento do oceano Pacífico Equatorial e na redução das chuvas na Amazônia. As consequências não se restringem ao nó logístico fluvial, mas incluem também incêndios florestais e erosões fluviais e poluição do ar.
“Costumamos temos a percepção de que os rios estão com volumes expressivos, só porque choveu muito em Manaus. Mas, não é bem assim: estamos com uma anomalia negativa”, frisou o coronel Francisco Ferreira Máximo Filho. “No contexto global, precisamos entender que esse tipo de cenário vai continuar acontecendo em uma escala mais frequente e mais intensa. No contexto global, há fenômenos climáticos que intensificam esse cenário crítico. Principalmente a possibilidade de El Niño se tornar um super El Niño. Ainda que os números não sejam reais e absolutos, estamos nos esforçando para compreender o cenário e antecipar ações”, emendou, frisando que as informações visam auxiliar na tomada de decisões dos empresários.
Impactos e ações
Dados apresentados pela Defesa Civil do Amazonas, referentes ao período de 3 de março a 1º de abril, apontam que o Estado já está com “anomalias de precipitação” na Bacia Amazônica, em função do aquecimento das águas na região, a despeito do período de “inverno amazônico”. “Esses últimos 30 dias estão mostrando que está chovendo muito abaixo do que deveria estar chovendo. Os dados da NOAA [National Oceanic and Atmospheric Administration] informam que o El Niño está efetivamente ganhando predominância em abril, maio e junho, e deve se consolidar nos trimestres à frente, embora ainda não seja possível mensurar sua intensidade”, apontou.
A “forte tendência de aquecimento” dos oceanos Pacífico e Atlântico gera previsão de chuvas “acima do normal” apenas no Leste do Amazonas e temperaturas “acima do normal” no Sul do Estado. As estimativas para os próximos dias são de cota d’água semelhante aos níveis de 2023 para o rio Madeira em Porto Velho (8,89 metros) e Humaitá (17,46 metros), com pico de enchente em abril e maio e pico da vazante em setembro e outubro. O rio Amazonas, em Itacoatiara (12,89 metros), Parintins (7,49 metros) e Manaus (27,30 metros) deve ficar abaixo desse patamar, com pico da cheia em maio e junho e pico da estiagem em outubro e novembro.
Francisco Ferreira Máximo Filho salienta que os impactos econômicos e as perdas de vidas gerados pelas mudanças climáticas afetam também o restante do país e do mundo, além de trazer a necessidade de trocar o comportamento reativo por ações preventivas. “O clima está impactando diretamente as cadeias produtivas. Do ano passado para cá houve um prejuízo enorme porque não tivemos a condição da sazonalidade perfeita para os plantios. Hoje, basicamente o cultivo é de produção de lavouras temporárias, porque aqueles que dependem de um período mais longo não estão sendo possíveis”, exemplificou, salientando que as cheias rigorosas também produzem estragos.
O secretário finalizou reforçando que a Defesa Civil” enxerga uma “probabilidade altíssima” de que a estiagem seja “de moderada a severa” neste e no próximo ano. Faço uma analogia comparando 2026 com algo semelhante a 2023. E, já sendo mais atencioso, compararia 2027 a 2024. Infelizmente, devemos ter dois anos muito difíceis, mas o pior vai depender de nossa capacidade de adaptação. Em 2023, esses alertas foram emitidos, mas infelizmente não houve compreensão e adesão em todos os segmentos, com a perda de mais de R$ 1,50 bilhão de arrecadação. Já em 2024, houve um envolvimento muito forte do sistema e tivemos até superavit”, enfatizou.
“Momento difícil”
Após o evento, o presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, reforçou à reportagem a importância da reunião. “Tivemos a palavra oficial da Defesa Civil, comprovando que vamos ter este ano, e provavelmente no outro também, uma estiagem muito mais severa do que tivemos em 2025. Com base nessas informações científicas e oficiais, estamos conclamando todos os empresários planejarem suas compras e abastecimentos de forma bem racional, para que não voltem a cair no fosso da estiagem, que costuma se dar entre setembro e novembro. Estamos também entrando em um contato com o governo do Estado, buscando uma solução compensatória”, adiantou
Levando em conta o que aconteceu nas estiagens de 2023 e 2024, o dirigente destaca que os fretes costumam disparar acima da marca de 300%, no quarto trimestre. “Se o empresário não se programar vai, com certeza, pagar imposto com mais de valor agregado sem sequer receber a mercadoria. E a mercadoria, que normalmente é recebida em 35 dias, passou a demorar 150 dias para chegar a Manaus. Os navios tinham de ser deslocados e descarregados em outros portos, para a mercadoria chegar em pequenas quantidades, por meio de balsas. Tudo isso nos alerta a conclamarmos todos os empresários, de forma a evitar esse momento tão difícil”, concluiu.
Marco Dassori



