Em: 24 de abril de 2026
Avanço contínuo da indústria reflete mudança estrutural na mobilidade e no consumo no Brasil.

A indústria de motocicletas do PIM renovou recordes em março. O Polo Industrial de Manaus fabricou 22.716 unidades em março, segundo o levantamento mensal da Abraciclo, divulgado em coletiva de imprensa. O resultado superou fevereiro (164.104) por uma vantagem de 29,6% e cresceu 34,5% sobre março de 2025 (158.343), sendo o melhor dado mensal da série histórica da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares, iniciada em 1976. Com 561.448 unidades fabricadas e 12,1% de alta, o primeiro trimestre registrou o segundo melhor placar do segmento para o período, nos 50 anos da entidade.

A base de dados confirma novos recordes nos licenciamentos e incremento nas exportações. Diante disso, a Abraciclo reforçou sua projeção de encerrar 2026 com sua sexta alta anual consecutiva, além de romper novamente a barreira dos 2 milhões de unidades. A expectativa é de incremento de 4,5% na produção, com 2.070.000 motocicletas, até dezembro. A perspectiva para o varejo doméstico é que sejam emplacadas 2.300.000 motocicletas, atingindo elevação de 4,6% diante do exercício anterior. As fabricantes esperam também manter as vendas externas no campo positivo pelo segundo ano seguido, ao avançar 4,4% nos embarques ao estrangeiro, totalizando 43.117 unidades.

Segundo o presidente da Abraciclo, Marcos Bento, o desempenho reafirma o “bom momento do segmento”, com ritmo consistente de produção e alinhado à demanda do mercado. “O resultado do trimestre foi extremamente positivo, com crescimento em quase todas as categorias. As vendas continuam consistentes, principalmente pelos atributos da motocicleta, como economia, mobilidade urbana, menor custo de aquisição e uso profissional. Isso faz com que as empresas continuem atualizando sempre sua oferta, através do lançamento de novos modelos”, celebrou.

 

Varejo e exportações

Segundo a Abraciclo, o volume de motocicletas emplacadas chegou a 571.728 unidades nos três primeiros meses deste ano, com 20,6% de alta. Março registrou 221.618 licenciamentos, resultado 29,2% superior ao de fevereiro (171.548) – que teve três dias úteis a menos. Na comparação com igual mês de 2025 (166.051), o crescimento foi de 33,5%. A média diária de vendas foi de 10.074 unidades. O Sudeste concentrou 32,6% (186.500) das vendas do acumulado do ano, seguido por Nordeste (32,3% e 184.600), Sul (13,5% e 76.900), Norte (12,3% e 70.600) e Centro-Oeste (9,3% e 53.100).

As motocicletas de baixa cilindrada (até 160 centímetros cúbicos) representaram 77,6% (435.700) das vendas domésticas de 2026. Os modelos de 161 a 449 cilindradas (110.400) responderam por uma fatia de 19,7%. Os veículos acima de 450 cilindradas (15.300) contribuíram com 2,7% do total e n novamente atingiram a maior expansão (+39,1%). A categoria Street (290.300) reinou com 51,7% da oferta. Na sequência, estão os modelos Trail (20% e 112.000), Motoneta (13,1% e 73.600), Scooter (8,8% e 49.400) e Naked (1,5% e 8.700), entre outras. Os modelos flex representaram 61,9% (347.800) do total, com progressão de 7,6% sobre 2025.

As exportações, por sua vez, também aceleram em todas das comparações. Entre fevereiro e março, houve uma escalada de 29,1%, com 4.606 embarques. A comparação com o mesmo mês do ano passado, confirmou elevação de 13,9%. O primeiro trimestre (11.441) apresentou expansão de 18,6%. Os principais mercados para as motocicletas ‘made in ZFM’, no acumulado do ano, foram Argentina (9.500 ou 46,5% do total), EUA (2.900 ou 14,2%), Colômbia (1.900 ou 9,2%), Uruguai (1.400) e Paraguai (1.000). As categorias mais exportadas foram a Trail (58,9%), a Off-Road (40,2%) e a Scooter (0,9%)

O presidente da Abraciclo ressaltou que a indústria de motocicletas do PIM tem exportado para mais de 50 países, nos últimos dez anos, e teve motivos para comemorar em março. “Tivemos um acréscimo de 1.798 motocicletas exportadas no primeiro trimestre, quando comparado ao mesmo período do ano passado. Entre os motivos para esse crescimento, destacamos novamente o papel dos mercados da América do Sul. O primeiro lugar foi ocupado pela Argentina, em decorrência inclusive da própria recuperação da economia do país vizinho. No segundo lugar, temos os Estados Unidos, que continua sendo um destino importante para nós”, salientou.4

 

Fator guerra

Na fase de perguntas da coletiva, Marcos Bento ressaltou que, apesar do desempenho positivo, a Abraciclo continua atenta aos desafios previstos para o ano, especialmente no que se refere ao cenário internacional de guerra no Oriente Médio e seus impactos na economia. “Acompanhamos esse conflito e seus efeitos no preço do combustível e logística. Isso nos preocupa, porque pressiona a inflação e, com isso, a gente teve uma queda da taxa Selic mais leve. Mas, ainda não notamos nenhum impacto na demanda e mantemos uma perspectiva de continuidade do crescimento ao longo do ano”, ponderou, acrescentando que a possibilidade de nova estiagem recorde na região amazônica também está no radar da entidade.

O presidente da Abraciclo se mostrou mais preocupado, quando indagado sobre os eventuais impactos do cenário geopolítico especificamente para as montadoras mais novas, que ainda têm nível de verticalização abaixo da média do subsetor, sendo mais dependentes da importação de componentes. “O polo de duas rodas emprega muitas pessoas e é bem verticalizado, mas o fornecimento global é uma realidade para todos. Por enquanto, neste cenário de curto prazo, não vimos nenhum problema. Mas, se houver prolongamento da guerra, podemos ter pressão logística e a falta de gás e combustíveis em países que nos fornecem gerar falta de componentes”, alertou.

Marcos Bento também foi questionado sobre a atuação da Abraciclo no sentido de incentivar uma cadeia crescente de componentes no PIM. “O polo de duas rodas de Manaus é um exemplo de que a verticalização é importante. Não só como ferramenta de regionalização e de fortalecimento da indústria local, mas também para que, em momentos difíceis, a gente tenha um grupo de fornecedores próximos de nós. É claro que existem fatores externos, como a própria seca e os conflitos globais, que afetam a logística. Do nosso lado, continuamos atentos e atuando junto com às autoridades, para termos o menor impacto possível no nosso volume de produção”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio

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