Em: 10 de março de 2026
A inflação da indústria emendou seu segundo mês seguido de alta, em janeiro. De acordo com o IPP (Índice de Preços ao Produto) do IBGE, que não mede fretes e tributos, os preços médios ficaram 0,34% mais elevados diante de dezembro. O aumento foi puxado mais pela indústria extrativa (+1,39%) do que pela de transformação (+0,29%). Em um horizonte de 12 meses, no entanto, a inflação de “porta de fábrica” retrocedeu 4,33%. As variações ficaram bem próximas da inflação oficial do IPCA (+0,33% e +4,44%), em todas as medidas, segundo apontado pelo mesmo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Na virada de janeiro de 2025 para dezembro de 2026, 15 das 24 atividades industriais pesquisadas ficaram mais caras. Os três aumentos mais intensos vieram da metalurgia (+2,73%); impressão (+2,73%); e produtos químicos (+1,70%). Atividades acompanhadas pelo IBGE no PIM também influenciaram na alta. A lista inclui o já citado polo químico e, principalmente, “produtos de metal” (+1,54%), mas também “máquinas e equipamentos” (+0,17%) e “máquinas aparelhos e materiais elétricos” (+0,14%). Os respectivos acumulados dos 12 meses (-6,36%, -1,38%, -0,47% e +4,46%) mostram quadro ainda predominantemente deflacionário, com apenas uma exceção.
Houve, em contrapartida, redução nos preços médios de segmentos majoritários no Polo Industrial de Manaus, a exemplo de “outros equipamentos de transporte” (-0,40%) – que inclui os polos de duas rodas e naval – e “equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos” (-1,02%) – que reúne o polo de bens de informática e a maior parte do polo eletroeletrônico. O mesmo pode ser dito do refino de derivados de petróleo e biocombustíveis (-0,66%). De fevereiro de 2025 a janeiro de 2026, foram registradas quedas de inflação para as linhas de produção de veículos (-4,07%) e de combustíveis (-7,64%), mas não para as de eletroeletrônicos (+0,49%).
Pela perspectiva das “grandes categorias econômicas”, o aumento ocorrido entre dezembro e janeiro só não foi acompanhado pelos bens de capital (-0,70%). Em contraste, bens intermediários (+0,54%) e bens de consumo (+0,26%), que predominam no Polo, puxaram o IPP para cima. No aglutinado dos 12 meses (-0,63%, -6,60% e -1,73%, na ordem), a variação dos preços permanece no campo negativo. No caso específico dos produtos de consumo, o encarecimento de janeiro foi sentido mais na divisão de bens semiduráveis e não duráveis (+0,27%) do que na de bens duráveis (+0,22%), embora a análise de longo prazo mostre aumento apenas entre estes (+2,27%), em detrimento daqueles (-2,49%).
Câmbio, demanda, oferta
Em texto postado no site da Agência de Notícias IBGE, o órgão de pesquisa destaca que o comportamento da taxa de câmbio ajuda a explicar a variação negativa do IPP no acumulado dos 12 meses, período em que o dólar acumulou queda de 11,3% frente ao real. Mas, lembra que a moeda americana também apresentou queda de 2,1% na passagem de dezembro para janeiro, o que leva à análise de outros fatores.
O gerente do IPP Murilo Alvim, aponta que a maior influência da metalurgia pode ser explicada pelo aumento dos preços dos metais não ferrosos. “Assim como ocorreu em dezembro, essa alta foi puxada, principalmente, pelo aumento dos preços dos metais não ferrosos, dessa vez com destaque para os derivados do ouro, que teve sua cotação impulsionada por aumentos da demanda pelo ativo, e dos derivados do cobre, que tem estado com um déficit de oferta e baixo estoque”, apontou.
O pesquisador diz que a alta do subsetor de produtos químicos se deveu principalmente aos aumentos de preços dos fertilizantes. “Os impactos dos maiores custos de aquisição de insumos importados (em particular os derivados de enxofre), que em dezembro já haviam sido percebidos em boa parte dos concentrados fosfatados, acabaram se intensificando e se espalhando neste início de ano”, ressaltou.
Já o subsetor de alimentos, que tem maior peso no IPP e representa 24% da pesquisa, diminuiu 0,17% na variação mensal e caiu 9,84% em 12 meses. “O principal destaque vai para os açúcares, cujo grupo apresentou queda acumulada de 28,30% no período. Acompanhou o recuo dos preços no mercado internacional, como consequência de uma oferta global abundante e alta produtividade, que ainda foram impactados pela queda do dólar frente ao real nesse intervalo, de 11,3%”, analisou.
“Choque de custos”
Para o presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, o recente repasse de preços na indústria, evidenciado pela segunda alta consecutiva do IPP em janeiro, demanda uma leitura cautelosa do atual ciclo econômico. “O protagonismo da indústria extrativa, que avançou 1,39% em contraposição aos 0,29% da indústria de transformação, sinaliza que a pressão inflacionária na porta de fábrica deriva primariamente das oscilações de matérias-primas e commodities. Esse movimento sugere um choque de custos concentrado na base da cadeia produtiva, o que naturalmente impõe desafios de absorção e compressão de margens para os elos subsequentes da transformação antes que o produto seja finalizado”, avaliou.
No entendimento do dirigente, a “retração expressiva” do IPP no acumulado dos 12 meses demonstra que o setor produtivo ainda atua sob os efeitos de uma acomodação prévia nos preços globais, apesar do “vetor altista de curto prazo”. “Essa deflação funciona como um importante amortecedor macroeconômico contra repasses mais agressivos. Contudo, a convergência quase simétrica da variação mensal entre o IPP e o IPCA alerta para a alta sensibilidade da cadeia de suprimentos, evidenciando que as pressões marginais na origem estão sendo rapidamente sentidas pelo varejo e, consequentemente, pelo consumidor final”, ponderou.
Diante disso, Antonio Silva considera que os números sinalizam um sinal amarelo para o setor. “Em suma, o cenário não aponta para uma espiral inflacionária industrial generalizada, mas exige vigilância em relação à volatilidade dos custos extrativos. A continuidade desse descompasso na alta dos insumos básicos pode limitar o fôlego da indústria de transformação em absorver perdas, forçando novos repasses que pressionariam a inflação oficial de forma mais persistente”, alertou.
“Baixa demanda”
Na análise do contador, professor da Ufam e consultor empresarial, André Costa, os dados da sondagem surpreendem positivamente por ainda não repercutirem totalmente a alta recente das commodities metálicas. “Talvez seja o caso do IBGE revisar a metodologia para o peso dos metais preciosos e terras-raras na composição dos números-índices. Continuo com uma perspectiva de alta do IPP. Sobretudo pelo aumento do preço do petróleo e consequências a toda cadeia de energia e resinas. O que tem atenuado as variações no indicador é a baixa demanda por materiais ferrosos, pela suavização do crescimento chinês. Isso pode continuar contendo o crescimento dos preços médios da indústria”, finalizou.
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