A inteligência artificial começa a sair das telas para ganhar um corpo capaz de caminhar, enxergar, ouvir, conversar e interagir com o ambiente. É nessa fronteira, conhecida como inteligência artificial física, que o inTera Tecnologia concentra parte de suas pesquisas em Manaus.

Dados divulgados na quinta-feira (24/9) pela Federação Internacional de Robótica (IFR, na sigla em inglês) mostram que 5,079 milhões de robôs industriais estavam em operação nas fábricas em 2025, crescimento de 9%. No mesmo ano, 603 mil novas unidades foram instaladas no mundo.

No Brasil, foram instalados quase 4,3 mil robôs industriais, alta de 38%, impulsionada principalmente pela indústria automotiva. Os humanoides ainda representam um mercado em formação: aproximadamente 7 mil unidades foram vendidas mundialmente para aplicações industriais e serviços profissionais.

Fundado em 2003 pela Digitron da Amazônia Indústria e Comércio e credenciado pelo Comitê das Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento na Amazônia (CAPDA), o inTera desenvolve projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) ligados ao ecossistema da Zona Franca de Manaus (ZFM).

Em janeiro de 2026, o instituto estruturou uma frente especializada em robótica humanoide. Segundo o inTera, o laboratório reúne mais de dez robôs de fabricantes como UBTECH Robotics, Unitree Robotics e AgiBot.

As pesquisas abrangem interação por voz em português brasileiro, modelos de linguagem, visão computacional, reconhecimento de pessoas e objetos, navegação, equilíbrio e manipulação. Algumas funções já são realizadas de forma autônoma, como caminhar, navegar em ambientes mapeados, conversar e conduzir apresentações.

O engenheiro e diretor executivo do instituto, Marcel Gonçalves, ressalta, porém, que a tecnologia ainda não está pronta para atuar sem limitações.

“Os projetos estão em fase de pesquisa aplicada e de pilotos. A autonomia completa em ambientes não estruturados, lidando com imprevistos, ainda é um desafio para toda a indústria mundial”, afirma.

O instituto identifica três aplicações mais próximas no Brasil: indústria, educação e atendimento. Nas fábricas, os humanoides poderão assumir tarefas repetitivas ou ergonomicamente desgastantes e atuar na logística interna. Na educação, podem auxiliar no ensino de programação e inteligência artificial. Em recepção, varejo e eventos, o diferencial está na interação com pessoas.

No curto prazo, a perspectiva mais realista é de colaboração entre máquinas e trabalhadores. A adoção em escala ainda depende de segurança, confiabilidade, produtividade, certificação, profissionais qualificados e retorno financeiro.

A localização em Manaus aproxima as pesquisas do Polo Industrial de Manaus (PIM), onde a tecnologia poderá ser testada em processos produtivos reais. O próximo passo será levar os experimentos às linhas de produção e avaliar em quais atividades os humanoides conseguem gerar ganhos mensuráveis.

Marcel também participou do painel ‘Robots are Coming to Brazil, evento ocorrido em  setembro em São Paulo, que discutiu a chegada da inteligência artificial física ao país e as condições necessárias para sua aplicação. Para ele, o debate envolve a posição que o Brasil pretende ocupar nessa transformação.

“Pela primeira vez, a inteligência artificial está ganhando um corpo. O Brasil precisa decidir se quer liderar, acompanhar ou apenas consumir a tecnologia desenvolvida lá fora. Nosso objetivo é que o país participe como desenvolvedor, e não apenas como comprador”, conclui.

Fonte: Coluna Mais Negócios – Cristina Monte

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