Evento reuniu lideranças industriais, especialistas e empresários no SENAI Amazonas para debater inovação, sustentabilidade e futuro da indústria no estado
O 44º encontro estadual da Jornada Nacional de Inovação da Indústria, realizado hoje (25) no SENAI Amazonas, encerrou a etapa estadual da iniciativa promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Serviço Nacional de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com correalização do Sistema FIEAM e Sebrae Amazonas. Empresários, especialistas e representantes do ecossistema de inovação participaram do evento, que colocou no centro do debate dois temas estratégicos: transformação digital e transição ecológica, pilares que, segundo os organizadores, irão redesenhar a competitividade industrial brasileira.
Um movimento nacional que termina na Amazônia
Ao abrir o evento, Élvio Dutra, diretor do Instituto SENAI de Inovação em Microeletrônica (ISI-ME) e representante da FIEAM, destacou a importância simbólica de Manaus encerrar a etapa estadual da Jornada. “A inovação tem um papel muito importante para impulsionar a indústria e a sociedade como um todo. Mais de um bilhão de reais têm sido investidos no nosso polo de inovação aqui de Manaus. A pergunta é: como estamos usando esses recursos para realmente fazer a diferença?”, provocou.
Ele lembrou que Manaus é o quarto maior polo industrial do Brasil, mas ocupa apenas a décima posição quando o assunto é inovação, reforçando a necessidade de transformar investimento em impacto concreto.
Rogério Pereira, diretor regional do SENAI Amazonas, destacou a relevância estratégica da iniciativa para o fortalecimento da competitividade nacional.
“A CNI está promovendo essa jornada em todas as regiões do Brasil com a proposta de levantar projetos, iniciativas e experiências relacionadas à inovação. Isso é fundamental para o país, porque, diante do cenário global e da disputa por mercados, a inovação é uma das variáveis mais importantes da competitividade, tão relevante quanto educação e uma economia dinâmica. O que estamos fazendo aqui no Amazonas é mostrar nossas experiências e contribuir para que as melhores práticas sejam levadas ao Congresso de Inovação e apresentadas em nível nacional. Precisamos incentivar e dar visibilidade às iniciativas bem-sucedidas.”
ESG deixou de ser discurso
Ananda Carvalho, diretora superintendente do Sebrae Amazonas, afirmou que a agenda ESG não é mais opcional. “Já passou do timing de tirar isso do papel. A pauta da transição ecológica já está sendo cobrada inclusive em balanços contábeis das empresas. Deixou de ser discurso para virar exigência.”
Ela também destacou a força do Polo Industrial de Manaus, que fechou 2025 com mais de 130 mil empregos diretos, mesmo em um contexto de indústria 4.0. “Estamos convivendo com digitalização e inteligência artificial sem abrir mão da empregabilidade. Mas isso só é possível com capacitação. Hoje falamos menos de tecnologia e mais de pessoas.”
O empresário como protagonista
Representando o Sebrae Nacional, o analista de inovação Philippe Figueiredo reforçou o papel do empreendedor como agente central da inovação. “Quem faz inovação é o empresário na ponta. Nosso papel é escutar, entender os desafios locais e transformar isso em políticas e programas mais aderentes à realidade.”
Já Mateus Barros, coordenador da Jornada pela CNI, explicou que os 44 encontros estaduais tiveram como principal objetivo ouvir o empresariado. “A gente está aqui para escutar. A inovação tem a parte bonita, mas também tem desafios. Queremos entender as dificuldades para apoiar melhor.”

As contribuições colhidas em Manaus serão consolidadas e levadas ao Congresso Nacional de Inovação, em São Paulo, onde será apresentado um panorama nacional.
Indústria 4.0: oportunidades e entraves
O painel “Desafios e Oportunidades da Transformação Digital no Amazonas” trouxe visões complementares da indústria local.
BYD aposta em automação e capacitação
O engenheiro de P&D e responsável técnico industrial da BYD em Manaus, Wilson Kerdy, destacou a expansão da fábrica de módulos de baterias em Manaus, com investimento de cerca de R$ 50 milhões. “Automatizar não significa tirar empregos. Pelo contrário, estamos capacitando profissionais para atuar em robótica e tecnologias avançadas. Todos os operadores da nossa linha têm nível técnico, no mínimo.”
Ele também enfatizou a importância da inovação aberta: “Não façam projetos para morrer em gaveta. Projeto é para ser aplicado. A empresa precisa estar junto com os institutos. Se errar, não é culpa do instituto, é responsabilidade compartilhada.”
Inteligência artificial para prevenir falhas
Do lado das soluções tecnológicas, Rufo Paganini, fundador da empresa Getter, apresentou exemplos práticos de uso de IA na indústria. “Saímos de um cenário sem dados para um cenário com excesso de dados. O desafio agora é transformar isso em decisão.”
Ele descreveu sistemas com câmeras inteligentes capazes de identificar falhas antes que gerem prejuízos e inteligência artificial que aprende com ajustes feitos por operadores. “O futuro da indústria é a máquina autônoma que aprende como o ser humano.”
Rufo também apontou que, embora existam hoje diversas fontes de fomento, como Finep, Embrapii e Fapeam, a burocracia ainda é um entrave: “O empresário quer entregar resultados. Se o processo de financiamento atrasa o cronograma, ele prefere não usar.”
O desafio do investimento
Já Alessandra Fragoso, diretora da Friovix, destacou que a digitalização no setor metalmecânico enfrenta barreiras financeiras. “Nossa maior dificuldade é o investimento. O produto tem baixo valor agregado e margens apertadas. Nem sempre o incentivo casa com o tipo de automação que precisamos”, disse, ao defender políticas mais direcionadas à realidade das indústrias instaladas na Zona Franca.
O segundo painel, “Desafios e Oportunidades da Transição Ecológica no Amazonas”, debateu a necessidade de alinhar sustentabilidade ambiental, inclusão social e competitividade industrial. A mediação ficou por conta de Philippe Figueiredo, do Sebrae Nacional, que reforçou que não é possível discutir transição ecológica sem integrar a transformação digital e a inovação produtiva. “Sustentabilidade e competitividade precisam caminhar juntas. O desafio é fazer o negócio ser mais responsável sem perder eficiência e mercado”, destacou.
Caio Perecin, diretor de Operações do Centro de Bionegócios da Amazônia, enfatizou que a bioeconomia precisa sair do campo conceitual e se consolidar como estratégia econômica estruturada. Segundo ele, o CBA vem ampliando sua atuação com foco em mercado, oferecendo análises químicas, microbiológicas e suporte técnico para empresas que utilizam ativos da biodiversidade. “Nosso papel é garantir qualidade, rastreabilidade e competitividade para que os produtos amazônicos alcancem novos mercados”, pontuou.
Já o empresário Antônio Lúcio Santos, da empresa Dica da Amazônia Regional, trouxe a perspectiva de quem empreende no interior do estado e enfrenta desafios estruturais diários. Ele relatou dificuldades com infraestrutura básica, como energia elétrica instável e ausência de pavimentação, e ressaltou que a transição ecológica precisa considerar a realidade dos pequenos negócios e das comunidades produtoras. “A bioeconomia acontece na ponta, mas muitas vezes falta estrutura para transformar potencial em escala”, afirmou.

Inovação para além de Manaus
Durante o debate, também foi destacada a importância de conectar produtores rurais, agroextrativistas e pequenas indústrias às cadeias de valor por meio de tecnologia, rastreabilidade e certificação. Casos como o da cadeia da castanha e de produtos regionais mostraram que inovação pode agregar valor, abrir mercados internacionais e gerar renda local — desde que haja integração entre indústria, institutos de pesquisa e empreendedores.
O painel reforçou ainda que a Amazônia ocupa posição estratégica no cenário global diante das discussões climáticas e da agenda ESG. No entanto, os participantes foram unânimes ao afirmar que a transição ecológica só será efetiva se combinar políticas públicas, acesso a crédito, capacitação técnica e infraestrutura adequada. A mensagem final foi clara: a bioeconomia não deve ser apenas uma pauta ambiental, mas um vetor real de desenvolvimento econômico sustentável para o Amazonas.
O evento esclarece que:
- O Amazonas é estratégico para o debate nacional sobre inovação sustentável.
- A capacitação profissional é prioridade absoluta.
- O acesso a recursos existe, mas precisa ser menos burocrático.
- A inovação aberta e a cooperação entre empresas e institutos são fundamentais.
- As transições ecológica e digital devem caminhar juntas, incluindo impactos sociais.
Próximos passos
As contribuições do encontro estadual em Manaus serão consolidadas na etapa regional Norte, em Belém, e posteriormente apresentadas no Congresso Nacional de Inovação, onde poderão influenciar políticas públicas e diretrizes nacionais para o setor industrial. Após a etapa estadual, a nova fase é consolidar propostas que podem redefinir o papel da indústria amazônica na economia digital e sustentável do país.
Também estiveram presentes no evento Rafael Lobo, diretor técnico do SENAI-AM; Roberto Garcia, diretor adjunto e coordenador de Ciência, Tecnologia e Inovação da FIEAM; diretora técnica do Sebrae-AM, Lamisse Cavalcanti; diretora administrativa e financeira do Sebrae-AM, Adrianne Gonçalves; o superintendente adjunto executivo da Suframa, Frederico Aguiar; o gestor de inovação e novos negócios da Tutiplast, Fábio Calderaro; o especialista em desenvolvimento industrial da CNI, Rafael Grilli, e a diretora técnica da Anprotec, Deolinda Ferreira.
Fonte: FIEAM



