Por Bianca Diniz
01 de agosto de 2026 às 12:50
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MANAUS (AM) – O canal Spotniks publicou, na quinta-feira, 30, o vídeo “A farra da Zona Franca de Manaus”, apresentado por Nicole Blank, com questionamentos sobre os incentivos fiscais concedidos à Zona Franca de Manaus (ZFM). Na abertura, a produção afirma que o Brasil deixa de arrecadar cerca de R$ 8 bilhões por ano para manter fábricas distantes do principal mercado consumidor. “A conta é dividida com quem nunca foi consultado”, declara a apresentadora. O vídeo parte dessa afirmação para definir o Polo Industrial de Manaus (PIM) como uma “montadora protegida” e um “privilégio” financiado pelos contribuintes dos demais Estados.
Criado em 2014 como um projeto de mídia digital e dedicado à produção de vídeos desde 2019, o Spotniks reúne 2,01 milhões de inscritos no YouTube. O canal publica conteúdos sobre economia, política, comportamento e sociedade e declara adotar princípios do liberalismo econômico, da democracia e da liberdade individual. No episódio sobre a ZFM, a argumentação passa pelo custo fiscal do modelo, pela importação de insumos e pelos efeitos atribuídos ao polo sobre produtividade, salários, concentração econômica e preservação ambiental.
Para examinar as declarações apresentadas no vídeo, a CENARIUM consultou o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, o vice-governador do Amazonas, Serafim Corrêa, e o especialista em Direito Tributário e ex-superintendente da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), Thomaz Nogueira. Os entrevistados contestaram a contextualização dos números e o uso de casos específicos para caracterizar o conjunto do PIM. Embora defendam a permanência do modelo, também reconheceram desafios relacionados à remuneração dos trabalhadores, à concentração da economia em Manaus e à necessidade de diversificação das atividades no Estado.
Custo da Zona Franca de Manaus depende do recorte
O Spotniks apresenta a estimativa de R$ 8 bilhões anuais como o custo dos incentivos concedidos às fábricas de Manaus. O presidente da Fieam, Antonio Silva, afirmou que esse enfoque restringe a discussão à renúncia tributária e deixa fora da conta a finalidade regional do modelo.“O debate sobre a Zona Franca de Manaus (ZFM) é frequentemente permeado por desinformações que ignoram a complexidade econômica, social e ambiental da nossa região. É nosso dever esclarecer a sociedade com dados rigorosos, desconstruindo narrativas que tentam resumir o modelo a um mero privilégio fiscal, quando, na verdade, trata-se de um instrumento constitucional de redução de desigualdades e de segurança nacional.”
Ao responder sobre a cifra usada no vídeo, Antonio Silva reconheceu que o valor se aproxima das estimativas para a atividade industrial, mas contestou sua apresentação como medida isolada dos efeitos do polo.“Em relação ao custo da ZFM, a afirmação de que as indústrias do polo custam cerca de R$ 8 bilhões anuais procede em ordem de grandeza quando isolamos apenas a atividade industrial, mas omite o contexto do retorno fiscal e econômico para o País. Dados da Receita Federal do Brasil de 2021 indicam que a indústria na Zona Franca de Manaus respondeu por R$ 7,5 bilhões em gastos tributários, o que representa apenas 1,8% de todo o gasto tributário nacional.”
A variação entre as estimativas foi outro ponto destacado pelo presidente da Fieam.“Mais recentemente, projeções rigorosas para o ano de 2024 estimaram o custo da atividade industrial entre R$ 5,94 bilhões e R$ 9,89 bilhões. No entanto, focar apenas na renúncia é um erro contábil grave.”
Antonio Silva também defendeu que a análise considere a arrecadação federal gerada no Amazonas e as contrapartidas obrigatórias das empresas. O estudo citado pela Fieam estima que, para cada R$ 1 de gasto tributário federal atribuído ao Estado, o Amazonas gera R$ 1,74 em arrecadação federal. Com as contrapartidas empresariais, a relação calculada pelo levantamento sobe para R$ 2,24.
O presidente da Fieam acrescentou que os incentivos produzem efeitos sobre a renda regional. “Ademais, estudos indicam que o multiplicador fiscal do programa varia de 1,14 a 3,03, evidenciando que cada real investido no programa retorna em renda para a região em uma proporção superior.”
Contrafactualidade
Após receber os questionamentos da CENARIUM, o especialista Thomaz Nogueira, com mais de 40 anos de experiência em temas relacionados à Zona Franca de Manaus, elaborou uma resposta ao vídeo. O texto foi encaminhado em primeira mão à reportagem antes de ser publicado pelo autor na plataforma Medium.
Na abertura do texto, Nogueira criticou a construção narrativa adotada pelo Spotniks. “A turma do Spotniks está achando que ganhou o campeonato do playground de farmar aura com o vídeo sobre a Zona Franca de Manaus. Edição caprichada, trilha dramática, estudo cortado no ponto exato, e um produto final que parece jornalismo econômico pesado, mas o que eles fizeram foi, no fim, um kit, pra usar a palavra favorita deles.”
Ao entrar na discussão sobre o custo dos incentivos, Nogueira afirmou que a conta apresentada pelo canal parte de uma premissa que considera incorreta. Segundo ele, o IPI que deixa de ser recolhido somente poderia ser tratado como perda de arrecadação se a produção permanecesse no Brasil mesmo sem o benefício fiscal. “Com todo respeito à categoria: você não pode contar como imposto perdido o IPI de uma produção que não existiria sem o incentivo. Nosso concorrente não é São Paulo, é a China.”
Nogueira sustenta que a retirada dos incentivos abriria espaço para produtos importados, e não para a transferência das fábricas de Manaus a outros Estados. A estimativa foi apresentada pelo próprio especialista ao descrever o destino provável da produção sem o tratamento tributário diferenciado. “Mais de 90% do que sai de Manaus não seria feito em canto nenhum do Brasil sem desenho tributário diferenciado, seria importado da China, de uma maquila mexicana ou de qualquer outra zona franca do mundo. Não há renúncia sobre produção inexistente. E isso não é jeitinho brasileiro: qualquer manufatura de eletroeletrônico nas Américas se faz com benefício fiscal, e na Europa esses bens praticamente nem se fabricam mais.”
Ao responder à afirmação de que a ZFM é financiada por contribuintes de outras regiões, Nogueira apresentou uma comparação entre a arrecadação federal no Amazonas e os repasses da União considerados por ele no período de 2000 a 2025. “Aqui o vídeo e a realidade se chocam de frente e a realidade ganha com número de quem fechava o caixa. De 2000 a 2025, o Amazonas recolheu R$ 230,0 bilhões (valores não atualizados) em tributos federais que subiram para Brasília e recebeu de volta menos de R$ 70 bilhões. O Estado põe muito mais no bolo da União do que tira.”
O ex-superintendente estendeu o argumento à arrecadação da Suframa. Segundo Nogueira, a autarquia utiliza cerca de 40% dos recursos arrecadados para manter suas atividades, enquanto o restante é incorporado ao resultado fiscal da União. “Até a máquina de fiscalizar se paga: a Suframa fica com cerca de 40% do que arrecada, e o resto vira superávit primário federal, para pagamento da dívida, sabia Spotniks?”
A interpretação apresentada pelo especialista alcança ainda o crédito de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Nogueira afirmou que o mecanismo preserva, nas etapas seguintes da cadeia industrial, a isenção concedida à produção realizada em Manaus. “O vídeo chama isso de ‘caridade com chapéu alheio’. O número diz o contrário. E o tal rateio do IPI que eles citam esbarra no mesmo erro de sempre: sem Manaus, não existe produção nacional para ratear imposto nenhum. Existe importação que ainda por cima não gera folha nem ICMS local.”
‘Não sabem nada’
Na discussão sobre a balança comercial do PIM, o vice-governador do Amazonas, Serafim Corrêa, rebateu o uso das exportações como principal medida de desempenho do modelo. Advogado e economista, ele afirmou que a produção incentivada em Manaus foi estruturada para abastecer o mercado brasileiro e reduzir a compra de produtos acabados no exterior. “Não sabem nada de como funcionam os incentivos da Zona Franca de Manaus. Esta não é de exportação, mas sim de substituição de importações. Por exemplo, em 2025 com 16 bilhões de dólares importados, produzimos e vendemos para o mercado interno 40 bilhões de dólares. Ou seja, 40 – 16 = 24 bilhões de dólares em substituição de importações.”
Ao responder às críticas sobre os resultados econômicos da ZFM, Corrêa situou a discussão no período anterior e posterior à implantação do modelo, em 1967. “Eles nunca vieram aqui, nem no antes, nem no depois de 1967. Nós que vivemos aqui sabemos a diferença, entre um tempo e o outro.” O vice-governador também citou a produção da Honda em Manaus como exemplo de produtividade industrial. “Nossas indústrias têm alta produtividade. Por exemplo, a HONDA, a cada 15 segundos, produz uma motocicleta. Nem no Japão eles alcançam essa marca.”
Corrêa também respondeu ao trecho em que o Spotniks atribui a conservação da floresta principalmente ao isolamento geográfico do Amazonas. Para ilustrar sua posição, o vice-governador encaminhou à CENARIUM uma imagem do território amazônico. “Quanto à preservação da floresta, esta foto responde no limite da inteligência dos que nos atacam.”
Por fim, Corrêa contestou a palavra “farra”, empregada pelo canal para definir os incentivos fiscais. Segundo o vice-governador, o tratamento tributário compensa as condições enfrentadas pelas indústrias instaladas em Manaus e assegura o mínimo de competitividade à produção local. “Quem afirma isso, não tem noção do que é implantar uma indústria na Zona Franca de Manaus. O que eles chamam de ‘farra’, eu chamo de compensações tributárias que nos garantem o mínimo de competitividade.”
Balança comercial e mercado interno
O Spotniks utiliza a balança comercial externa para classificar o Polo Industrial de Manaus (PIM) como uma “montadora protegida”. Em 2025, as empresas instaladas no polo importaram US$ 14,716 bilhões em insumos e exportaram US$ 663,9 milhões em produtos, segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).
O presidente da Fieam, Antonio Silva, contestou a avaliação do modelo baseada apenas no fluxo internacional. Para ele, a comparação entre importações e exportações deixa fora da análise o mercado brasileiro, principal destino da produção do PIM. “A tese de que o polo funciona como uma montadora protegida que importa muito mais do que exporta ignora a natureza do mercado interno brasileiro e o alto valor agregado da nossa produção.”
Para dimensionar as operações domésticas, Antonio Silva citou um levantamento sobre as vendas e as compras realizadas pelo polo. “Embora o PIM apresente um déficit comercial externo devido à importação de insumos, ele é altamente superavitário perante o mercado doméstico, tendo registrado em estudos recentes uma exportação para outras regiões do País na ordem de US$ 25 bilhões frente a uma importação nacional de apenas US$ 4,45 bilhões.” Os valores mencionados correspondem aos resultados de 2018 divulgados pela Suframa e reproduzidos em um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) publicado em 2019.
Antonio Silva também recorreu ao valor gerado pelas etapas industriais realizadas no Amazonas para contestar a definição de “mera montagem”.“O Polo Industrial de Manaus não realiza mera montagem. A relação entre o valor da transformação industrial (VTI) e o valor bruto da produção industrial (VBPI) no Amazonas é de 49,2%, índice superior à média nacional de 43,6%, o que comprova uma agregação de valor muito superior à de outros grandes centros industriais.” Os percentuais citados têm como referência a Pesquisa Industrial Anual de 2016, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na área de informática, o presidente da Fieam destacou as obrigações de produção e investimento impostas às empresas incentivadas. “Sobre as contrapartidas tecnológicas, o Processo Produtivo Básico (PPB) exige internalização de etapas produtivas, e as empresas do polo de informática são obrigadas a investir 5% do seu faturamento bruto em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), injetando cerca de R$ 2 bilhões anuais em inovação, percentual este que é superior ao restante dos beneficiários da Lei de Informática Nacional, que fixa o investimento compulsório em 4%.”
Thomaz Nogueira apresentou a indústria de aparelhos de ar-condicionado split como exemplo de substituição de importações. O especialista comparou a entrada do equipamento pronto no País com a compra de componentes estrangeiros destinados à fabricação em Manaus. “Lá atrás, em 2012, o ar-condicionado split importado engoliu o mercado brasileiro. Em março, o produto de fora já passava de 55% das vendas no País, e a produção em Manaus despencou. Em junho, chegou ao fundo do poço, 30 mil unidades no mês.”
Nogueira atribuiu a recuperação da produção ao aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e ao encerramento da chamada “Guerra dos Portos”. “Aí o governo fez duas coisas: subiu o IPI e o Senado encerrou a ‘Guerra dos Portos’. Resultado, no mesmo ano: novembro fecha com 314 mil unidades. Crescimento de mais de mil por cento. O maior importador do aparelho virou fabricante dentro do Brasil. Menos importação, balança comercial melhor, emprego e imposto gerados no País inteiro.”
A partir desse caso, Nogueira argumentou que o aumento da importação de componentes pode ocorrer ao mesmo tempo que a redução da compra de produtos acabados no exterior. Por isso, considera insuficiente avaliar o PIM apenas pelo resultado da balança comercial externa. “E qual é o truque estatístico que o vídeo repete? Quando a produção volta pra Manaus, cai a importação de produto acabado, mas sobe a importação de peças e insumos na conta do Polo. Os críticos pegam só a segunda metade e cravam: ‘viu, a Zona Franca é deficitária’. É zombar da inteligência alheia. O País ganhou; eles vendem a vitória como se fosse derrota.”
Contrapartidas e crédito tributário
O Spotniks associa a ausência de metas de exportação à afirmação de que a ZFM “não cobra nada” das empresas beneficiadas. A Suframa, no entanto, condiciona a aprovação de projetos ao cumprimento do Processo Produtivo Básico (PPB) e de critérios relacionados à geração de empregos, aos benefícios oferecidos aos trabalhadores, à incorporação de tecnologia, à produtividade, à capacitação profissional e ao reinvestimento. As empresas do setor de informática também devem aplicar recursos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I).
O vídeo questiona ainda o crédito de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) concedido na aquisição de insumos fabricados na Zona Franca. Thomaz Nogueira afirmou que o mecanismo preserva a isenção da etapa realizada em Manaus quando o componente segue para outra cadeia industrial. “O IPI é não-cumulativo: cada etapa abate o que a etapa anterior pagou. Quando uma fábrica de São Paulo usa um componente feito em Manaus, se você não der o crédito presumido, o imposto cascateia para trás e acaba tributando a etapa de Manaus, justamente a que a lei isenta desde sempre. O crédito não é benefício novo: é o mecanismo que impede que se tribute o que já é isento.”
O Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu o direito ao crédito de IPI sobre insumos isentos adquiridos na ZFM. Ao comentar o impacto da decisão, Nogueira citou uma nota técnica da Secretaria de Estado da Fazenda do Amazonas (Sefaz-AM) e comparou a estimativa com valores publicados pela imprensa.“Detalhe que a ‘surra midiática’ da época escondeu: a imprensa cravou impacto de R$ 16 bilhões (Folha) e R$ 49 bilhões (Estadão). A nota técnica da Sefaz-AM repôs os fatos: menos de R$ 1 bilhão por ano.”
Spotniks aponta insuficiência
Com base em um estudo atribuído pelo canal a pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), o Spotniks afirma que as fábricas de Manaus não são mais eficientes do que as instaladas no restante do País, tanto em produtividade quanto no consumo de energia. O vídeo também diz que, em 2019, apenas R$ 5 de cada R$ 100 faturados pelo polo foram destinados aos salários, diante de R$ 11 na média da indústria brasileira.
Thomaz Nogueira considerou a produtividade o questionamento mais consistente do vídeo. Para ele, a resposta exige dados e deve levar em conta a concorrência internacional enfrentada pelos produtos fabricados em Manaus. “A resposta séria não é fingir que são; é a régua. O comparável é a China, não o Sudeste, e boa parte dos nossos produtos supera de longe o mínimo do PPB. Mas essa réplica precisa vir com dado na mesa, não com ‘venha ver de perto’.”
O presidente da Fieam, Antonio Silva, respondeu com indicadores de remuneração e escolaridade. Segundo ele, em 2015, o salário médio da indústria amazonense chegou a R$ 1.519, diante de R$ 1.252 nas áreas usadas como comparação. Antonio Silva também afirmou que os trabalhadores do setor alcançaram média de dez anos de estudo.
Nogueira reconheceu a necessidade de elevar a remuneração.“Essa é a crítica do vídeo que eu levo a sério, sem fugir. O salário do Polo pode e deve ser melhor. Ponto.” O especialista ponderou que o salário-base não inclui benefícios oferecidos pelas empresas incentivadas, como transporte, alimentação e assistência médica para o trabalhador e sua família.“Só que a foto do ‘contracheque baixo’ está incompleta. A Constituição do Amazonas exige das empresas incentivadas um pacote que é renda adicional que não aparece no salário-base.”
A inclusão desses benefícios, afirmou Nogueira, não encerra a discussão sobre os salários.“Dito isso, não me escondo atrás do pacote. Durante anos a bateção de cabeça foi só defender a validade do modelo, quando a gente devia estar discutindo sua evolução. A pauta vira melhorar o salário.”
Ao abordar a concentração econômica, o Spotniks afirma que Manaus reúne 79% da economia do Amazonas. Antonio Silva respondeu que as empresas incentivadas contribuem para fundos utilizados no financiamento de políticas estaduais. Ele mencionou aportes anuais de cerca de R$ 2 bilhões ao Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas (FTI) e de R$ 800 milhões à Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Nogueira também reconheceu a concentração da atividade econômica na capital, mas defendeu que ela seja enfrentada com diversificação, sem a substituição do PIM. “A concentração é brutal. Metade da arrecadação estadual vem de menos de 20 empresas; mais de 80% da atividade econômica está em Manaus. O vídeo usa a concentração para pedir a morte do modelo. Eu uso para pedir diversificação: a bioeconomia amazônica como segundo vetor, somando ao Polo, nunca substituindo.”
Concentrados e alcance das críticas
O Spotniks apresenta o setor de concentrados de bebidas como exemplo do funcionamento dos incentivos da ZFM. No vídeo, o canal atribui à Receita Federal a constatação de que um produto com custo de R$ 36 por quilo chegou a ser comercializado por até R$ 450 e relaciona a diferença à geração de créditos tributários.
Thomaz Nogueira afirmou que eventual superfaturamento deve ser investigado pelos órgãos fiscais. “Se a Receita flagrou superfaturamento para inflar crédito, isso é preço de transferência a ser fiscalizado, e não vou defender.” A objeção do especialista está no uso desse episódio para caracterizar todas as atividades do PIM. “Mas é exatamente aí que mora o golpe de mágica do vídeo: ele pega um único produto da lista e pinta as outras 600 com a mesma tinta.”
Para defender a responsabilização individual das empresas, Nogueira citou fiscalizações realizadas durante sua passagem pela Secretaria de Estado da Fazenda do Amazonas (Sefaz-AM). Segundo o ex-superintendente, uma empresa paranaense que ele classificou como “fábrica de fachada” foi fechada, enquanto uma companhia paulista recebeu autuação por uma tentativa de fraude, deixou o Amazonas e passou a criticar a ZFM.
Nogueira encerrou a resposta diferenciando o setor de concentrados de outras cadeias produtivas instaladas em Manaus. “Ar-condicionado, moto, celular e televisor são manufatura de verdade, com folha de pagamento de verdade. Não defenda o abuso. Mas recuse a generalização.”
Emprego industrial e preservação da floresta
O Spotniks atribui a preservação ambiental do Amazonas principalmente ao isolamento geográfico e à ausência de estradas. O presidente da Fieam, Antonio Silva, e o especialista Thomaz Nogueira afirmaram que essas condições não afastam a contribuição do emprego industrial para a conservação da floresta.
Segundo Antonio Silva, pesquisas citadas pela Fieam relacionam o aumento da ocupação formal no PIM à redução do desmatamento. O presidente da entidade também afirmou que a perda de competitividade das fábricas poderia deslocar trabalhadores e investimentos para atividades que exigem maior uso da terra, como a agropecuária e a extração de madeira.
Nogueira sustentou que o isolamento geográfico e a concentração de empregos em Manaus atuam de forma complementar. “O isolamento segura o trator do agronegócio na fronteira; a Zona Franca segura 2 milhões de pessoas empregadas numa cidade só, em vez de espalhadas na frente de desmatamento.” Na fala, o número de 2 milhões se aproxima da população de Manaus, não do contingente empregado pelo PIM. Em 2025, a Suframa registrou média mensal de 131.680 trabalhadores efetivos, temporários e terceirizados nas empresas informantes.
Farra e privilégio?
Antonio Silva rejeitou as expressões usadas pelo Spotniks para definir a ZFM. “Classificar a Zona Franca de Manaus como uma ‘farra’ ou um ‘privilégio’ financiado por outros Estados é uma distorção retórica que ofende os preceitos de redução de desigualdades estabelecidos na Constituição Federal.” Na mesma resposta, o presidente da Fieam afirmou que o Sudeste e o Sul concentram, respectivamente, 46% e 16% dos gastos tributários federais e estimou em 500 mil os empregos diretos e indiretos sustentados pelo polo.
Ao encerrar sua análise, Thomaz Nogueira reconheceu problemas no modelo, mas contestou a seleção de casos apresentada pelo canal. “Manaus não é modelo perfeito, e nunca disse que era. O salário tem que subir, a economia tem que diversificar, o abuso do concentrado tem que ser fiscalizado. Mas reduzir 60 anos de política de soberania, emprego e floresta a uma piada sobre xarope de Coca-Cola não é análise. É farmar aura.”
Nogueira retomou a frase usada pelo Spotniks na abertura do vídeo para concluir: “Eles fecharam o vídeo dizendo que você pagou uma conta a vida toda sem saber. Eu passei a minha vida profissional dentro dessa conta, apurando o imposto, dirigindo a máquina, e te digo: a conta existe, mas não é a que eles somaram.”
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