Também é a primeira vez, em três anos, que o rio Negro ultrapassa a cota de 20 metros (20,03) já no primeiro dia do ano, segundo o Porto de Manaus, um dado que acende o alerta para a possibilidade de uma cheia mais severa. O nível está próximo ao registrado no início de 2012, quando o rio marcava 20,51 metros em 1º de janeiro, mas ainda abaixo da cheia recorde de 2021, quando as águas chegaram a 21,26 metros na mesma data.
O secretário ressalta que tudo vai depender de como será o comportamento das chuvas, considerando que o inverno amazônico ainda se estende até março e que o período de cheia dos rios segue até junho. O alerta serve, principalmente, para que gestores públicos como a própria Defesa Civil possam se antever ao cenário para reduzir os possíveis impactos de uma cheia severa. Confira a entrevista completa.
Em termos de desastres naturais, quais são as principais ocorrências registradas pelo Amazonas?
Por conta dessas mudanças climáticas, em função do aquecimento global, esses eventos extremos climáticos têm ocorrido com mais frequência em todas as partes do mundo. E aqui no Amazonas também temos, de forma muito recorrente e frequente, problemas principalmente com os extremos de enchente, degradação e também seca severas. Mas nós temos outros problemas, advindos também das consequências dessas mudanças climáticas, que são as alagações, as enxurradas, os deslizamentos de terras e as erosões fluviais. Isso atinge principalmente comunidades de ribeirinhas, mas também nos centros urbanos, nas sedes dos municípios.
No último ano o rio secou pouco em relação aos demais anos e começou a encher, e logo teve essa elevação do nível do rio. E para essa próxima cheia, o que está previsto? Tem parâmetros que apontam estar dentro da normalidade?
A gente ainda está avaliando esse cenário, porque como ele terminou dentro dos padrões da normalidade, o que poderá tirar os rios dessa normalidade é se tivermos um volume de precipitação muito alto. E é importante frisar que em 2025 tivemos os maiores volumes de precipitação dos últimos 100 anos, o que significa dizer que se os rios estivessem dentro da normalidade, certamente teríamos tido uma enchente superior de 2021 que foi a maior da história. Isso só não ocorreu porque as bacias estavam em níveis muito críticos, com dois anos seguidos de seca extrema. Então esse volume de precipitação, que foi o maior da história, foi absorvido e permitiu com que os rios voltassem à normalidade. Para o ano de 2026 ainda não conseguimos confirmar, embora haja uma probabilidade, de que teremos uma cheia recorde, porque ainda não temos essa condição de visualizar que o volume de precipitação de 2026 será idêntico ao de 2025.
Em caso de uma cheia, quais são as ações planejadas para acontecerem nesse período?
A nossa preocupação maior é com as pessoas. E nesse caso garantir os serviços essenciais é extremamente importante. Então as reuniões preventivas visam justamente isso, chamar todos os atores. Vou citar um exemplo: a parte de energia é um serviço essencial para a população. Nós reunimos todas as concessionárias, todas as empresas que são responsáveis por prover energia para que elas, de posse dessas informações, apliquem nos seus planos as ações necessárias para garantir que a população amazonense, principalmente dos municípios, não sofram interrupção. Esse é um trabalho preventivo que é feito. Isso eu posso mencionar como exemplo, principalmente na estiagem, porque traz um elemento complicador maior, ou seja, mais desafios, porque chegar nos municípios se torna mais difícil, considerando que boa parte dos nossos municípios estão interligados por rios e não por estradas.
Manaus está entre as cidades que mais tem alertas de desastres naturais. Como é possível reduzir isso?
Na verdade, a gente não tem uma preocupação com a redução da emissão de alertas, porque felizmente ou infelizmente nós vivemos em uma região que está suscetível às mudanças climáticas o tempo inteiro, porque a Amazônia é reguladora, e a gente ainda tem um outro grande desafio por trás de tudo, diferentemente de outros grandes centros, que os satélites e os radares conseguem de forma mais rápida dar previsões mais assertivas. Aqui na Amazônia a mudança climatológica acontece em frações de minutos, de segundos, é muito rápido, então nem tudo é muito previsível, porque há essas mudanças, essas alterações, elas podem acontecer de forma muito rápida e isso demora um pouco. Então a nossa preocupação não é na emissão dos alertas, a nossa preocupação é na recepção deles. Não adianta, como eu falei anteriormente, a gente emitir um alerta e a pessoa não dar a devida importância desse alerta.
Em relação a isso, tem pesquisas que mostram que Manaus é uma das cidades que mais cresceu com ocupações irregulares nos últimos anos. Isso influencia na ocorrência dos desastres?
Totalmente. Hoje é uma preocupação muito grande por parte da Defesa Civil com relação às pessoas que moram em áreas de risco. Elas moram ali não porque querem, mas sim porque elas não têm ainda uma habitação, um local seguro. E nessa esteira, o governo tem procurado, através dos seus programas habitacionais, reduzir esse déficit habitacional, entendendo que as políticas públicas precisam ser maiores e progressivamente também acompanhar esse déficit habitacional, não só de habitações, mas também de saneamento e outras questões de infraestrutura, para que essas pessoas que moram em áreas de risco possam ter um local seguro para morar. E dentro dessa questão dos programas habitacionais, o governo do estado lançou recentemente um programa chamado Amazonas Eco Lar. Esse programa vai atuar diretamente na causa que são os impactos causados pelo descarte inadequado de lixos, principalmente de lixos e resíduos plásticos, que entopem galerias, que poluem o meio ambiente, que provocam a contaminação do solo e, consequentemente, trazem danos também direto para a população, principalmente essas que moram em áreas de risco.
Atualmente o alerta da Defesa Civil vem sendo utilizado para avisar as pessoas sobre riscos durante as chuvas. Já conseguem visualizar o quão eficiente é essa medida?
O feedback que nós temos pelas redes sociais, pelas pessoas e até pela própria imprensa é que os alertas têm contribuído e muito. Porém, ainda é cedo para gerar as estatísticas necessárias para compreender, efetivamente, os resultados diretos. Mas, independentemente de não estarmos com essas estatísticas já em condições, porque ainda não completou nenhum ciclo, eu entendo que os alertas vieram para ficar, principalmente o DCA (Defesa Civil Alerta), que não necessita de cadastro. Esse alerta é enviado quando a situação já está em curso, as pessoas falam: “ah chegou depois de estar chovendo”. Sim, porque ele aponta durante o curso da situação, conforme a chuva vai ficando mais forte, o alerta de risco é enviado.
Ao receber esse alerta severo, o que a população deve fazer? Qual a orientação? Existe algum lugar que as pessoas de áreas de risco podem ir?
Sim, elas podem entrar em contato pelo 199, se ela não sabe ainda quais são os abrigos, porque a Defesa Civil Municipal tem essa responsabilidade, dentro das áreas de risco, de definir pontos considerados seguros para a população. O Estado envia o alerta com uma mensagem simples, ele coloca se o risco é de alagamento, se é de uma enxurrada ou ventos fortes, apenas para que a pessoa entenda efetivamente um problema em curso e aí as ações complementares, elas têm que ocorrer através do 199, que é a Defesa Civil do município, que tem essa missão precípua de colaborar através dos planos de contingência, o mapeamento e rotas de fuga que garantam que a população daquela área siga para um local seguro.
Para atuar nos municípios do interior, a Defesa Civil do Estado tem parcerias com as prefeituras para que esses municípios sejam atendidos?
Sim, estamos totalmente integrados, há Defesa Civil em todo o estado do Amazonas. Todos os 62 municípios possuem Defesa Civil, nós estamos constantemente trabalhando na capacitação, naquilo que nos compete, que é apoiar os municípios com instrução, com capacitação, criando ferramentas tecnológicas, por exemplo o SISPDEC, que é o Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil, que foi desenvolvido aqui pelo estado, que é disponibilizado para o município para fazer cadastro, para colocar em área de risco, para servir de uma interface com a população, para registrar as ocorrências, porque, através dele, a gente tem acesso rápido das ocorrências e, dessa forma, podermos prover como estado qualquer tipo de apoio ou até submeter também à apreciação do governo federal, dependendo da intensidade do desastre, para que aquele município também possa receber qualquer tipo de ajuda.
Qual o orçamento da Defesa Civil para atuar agora em 2026? É o suficiente para toda essa demanda que a Defesa Civil tem?
O Estado tem aportado até suplementarmente recursos para atender os cenários de desastre. Nós temos recursos que servem para custeio das nossas ações preventivas e custeio da máquina e quando há necessidade em função dos eventos que possam ocorrer, o governo do Estado usa o fator suplementação para aportar recursos para ajudar os municípios. Ao longo desses sete anos não deixamos de apoiar nenhum município, entendendo que o Estado complementa, a União suplementa. O município dá a primeira resposta, ele atua com seus recursos. Nem sempre conseguimos chegar a atender 100% das demandas, porque o Estado nesses últimos anos tem sido impactado de forma muito intensa em todos os seus municípios e isso impede às vezes de atender na plenitude todos os pedidos, mas eu te asseguro que ao longo desses sete anos a Defesa Civil tem ajudado e apoiado os municípios dentro das suas principais demandas.