Em: 24 de março de 2026
Insegurança em rios e estradas eleva custos, impacta preços e entra no centro dos debates da TranspoAmazônia 2026, maior evento do setor na região.

A logística na Amazônia enfrenta desafios que vão muito além das grandes distâncias e das particularidades geográficas e climáticas da região. A crescente insegurança em rios e estradas, marcada por casos de pirataria fluvial e roubo de cargas, tem impactado diretamente o custo do transporte e, consequentemente, o preço final dos produtos que chegam à população.

É nesse cenário que o empresário Irani Bertolini, presidente da Federação das Empresas de Logística, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia (Fetramaz), chama atenção para um dos principais gargalos do setor. Com mais de cinco décadas de atuação, ele também lidera a realização da TranspoAmazônia 2026, feira e congresso internacional que acontece entre os dias 27 e 29 de maio, em Manaus, no Centro de Convenções Vasco Vasques.

Considerado o maior evento do segmento na região, a TranspoAmazônia deve reunir representantes de mais de 40 países, além de especialistas, empresários e autoridades para discutir temas estratégicos como segurança no transporte, inovação tecnológica, sustentabilidade e infraestrutura. A expectativa é que o encontro movimente cerca de R$ 900 milhões em negócios e consolide Manaus como um polo de debates sobre o futuro da logística na Amazônia.

Além da exposição de equipamentos, veículos e soluções tecnológicas — incluindo o uso de inteligência artificial aplicada ao setor — a programação prevê fóruns temáticos que abordarão diretamente os principais desafios enfrentados pelas empresas que operam na região. Entre eles, a segurança logística ganha destaque central, diante do avanço das organizações criminosas e dos impactos econômicos gerados por essa realidade.

Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, Bertolini detalha os impactos da falta de segurança no dia a dia das operações, os custos que recaem sobre consumidores e as perspectivas para o futuro da logística na Amazônia, além de apontar os caminhos que devem nortear os debates durante a TranspoAmazônia 2026.

 ENTREVISTA IRANI BERTOLINI; Empresário e presidente da Federação das Empresas de Logística, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia (Fetramaz)

1)        O senhor afirma que a segurança é hoje um dos principais gargalos logísticos da Amazônia. Quais são os números ou indicadores que mostram o impacto desse problema nos rios e nas estradas da região?

Sim, temos vários problemas relacionados com a falta de segurança na região. Nas estradas e cidades temos o roubo de cargas e nos rios a questão da pirataria é um problema sério, principalmente o roubo de combustíveis em toda a Amazônia. Um indicador importante é que a maior parte das balsas que navegam hoje na região tem escoltas armadas para garantir que cheguem ao seu destino e garantam o abastecimento dos municípios mais distantes. Todos estes temas serão debatidos em um fórum específico na TranspoAmazônia com a participação de especialistas e de quem atua diretamente na área.

2)        Como esses custos extras com seguros, monitoramento e escoltas têm afetado o preço final dos produtos para o consumidor no Amazonas e na região Norte?

Outro exemplo são os custos com o seguro de cargas em embarcações que aumentaram significativamente nos últimos anos. Isso é repassado em cadeia para os contratantes até chegar no consumidor final do produto. Ou seja, o preço de muitos itens poderia ser menor se não houvesse a necessidade de arcar com estes custos extras.

3)        Na comparação com outras regiões do Brasil, o que torna o transporte amazônico mais vulnerável e complexo do ponto de vista operacional?

Além das questões geográficas e ambientais, das grandes distâncias, dos períodos de estiagem no caso do transporte fluvial, temos a questão burocrática. No caso de Manaus, por exemplo, enfrentamos até 6 dias de água para chegar na cidade com um caminhão. Chegando aqui a documentação da carga precisa passar pela fiscalização, o que demora mais um tempo, para poder descarregar. Enquanto isso, no restante do país, você chega no destino, abre a porta, descarrega e já vai para o próximo serviço. É totalmente diferente e com menos custos para toda a sociedade.

4)        A Federação das Empresas de Logística, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia já apresentou propostas concretas ao poder público para reforçar a segurança logística? Quais medidas seriam mais urgentes hoje?

Sim. Além de anos levando ao poder público projetos, sugestões e propostas, pessoalmente estive com três ministros da Justiça para falar exclusivamente sobre a questão da segurança fluvial e da pirataria e não consegui grande sucesso com eles, somente o último ministro com quem me reuni nos afirmou que colocaria bases e estrutura e está fazendo. Tem uma na Boca do Rio Grande, outra no Solimões e em breve esperamos que entre em funcionamento uma terceira no Madeira.

5)        A TranspoAmazônia 2026 reunirá representantes de dezenas de países. Que tecnologias ou inovações vocês esperam ver surgir na nova edição da feira?

Contaremos com a participação de todos os países das Américas, incluindo Estados Unidos e Canadá e além dos debates e apresentações sobre novas tecnologias, e equipamentos, uso de IA e outras plataformas, o público poderá conferir de perto a utilização e a aplicação destas inovações em barcos, veículos e balsas e isso é muito importante porque é um tema que não interessa apenas quem atua e trabalha no setor, mas que afeta o cotidiano de todos, especialmente na Amazônia, onde o transporte desempenha um papel fundamental no abastecimento de produtos básicos como alimentos e combustíveis.

6)        O setor logístico tem acompanhado o crescimento do consumo e da atividade econômica na Amazônia ou ainda existe um déficit estrutural de infraestrutura?

Com toda certeza. Ao longo dos anos, com investimentos em novos equipamentos, tecnologias, capacitação dos profissionais e também na parte de sustentabilidade, o setor está preparado e da parte das empresas somos capazes de atender completamente a demanda atual e futura com o enorme potencial de crescimento da região. Por outro lado, há um segmento que não depende do setor privado que precisa de mais atenção como os portos e estradas.

7)        Considerando o cenário econômico, político e climático deste ano, quais são as perspectivas para o transporte de cargas na região em 2026 e 2027?

Para este ano, as previsões indicam que não teremos grandes problemas com a seca dos rios e os grandes navios e balsas poderão transportar em suas rotas sem dificuldades e será um ano bom para o transporte fluvial, de cabotagem e rodoviário. Para 2027, aguardamos os resultados e propostas que irão se apresentar a partir do segundo semestre.

8)        Qual o principal legado que o evento pretende deixar para a logística amazônica e para o ambiente de negócios em Manaus e na região Norte?

A edição 2026 da TranspoAmazônia foi planejada para ser o maior evento do setor na região e entrar para a história, não apenas por sua estrutura física que irá tomar conta de todo o Centro de Convenções Vasco Vasques ou pelo volume de negócios previstos, que é de R$ 900 milhões, mas por ser o indicador do futuro do transporte de cargas e passageiros na Amazônia em termos tecnológicos, ambientais, de inovação, de ações, projetos e iniciativas práticas que irão beneficiar a economia e a sociedade dos estados que integram a região e também de todo o país.

Lílian Araújo

É Jornalista, Artista, Gestora de TI, colunista do JC e editora do Jornal do Commercio
Fonte: JCAM

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